segunda-feira, 19 de junho de 2006

"Como fica a idéia do autor quando as obras de arte passam a ser coletivas?"

"Se pegarmos, por exemplo o caso da música. Tem um sistema de notas em sistema sonoro podemos dizer que este sistema é um tipo de instrumento conceitual para a música. Você. tem um violino ou um piano. Eles são feitos por artistas: as pessoas que fabricam o piano, que fabricam o violino, esses instrumentos podem ser considerados obras de arte. Um Stradivarius é uma obra de arte. Alguém que utiliza um Stradivarius não diminui sua criatividade. Quem se inscreve no sistema da tonalidade clássica ocidental não tem sua criatividade diminuída. Ele a utiliza como instrumento como uma regra de jogo. Ora, o que estamos experimentando atualmente é uma situação na qual cada pessoa que compõe um trecho de música fabrica não somente uma mensagem, uma obra de arte mas, ao mesmo tempo um instrumento que os outros poderão utilizar. È como se disséssemos: cada pintor faz um quadro ou vários quadros mas esses quadros são também, pigmentos que os outros pintores vão poder empregar para pintar seus quadros. Portanto, hoje em dia, cada obra tem, de certo modo um duplo papel: um papel de mensagem ou de obra e um papel de instrumento. Podemos dizer que há uma hierarquia da complexidade. Você fabrica um computador. Ele é um tipo de instrumento universal. É preciso criatividade para se construir um computador. Você fabrica um programa de criação musical. E isto já está em um grau mais elevado. Um programa de computador é uma obra mas também um instrumento para se construir outras. Você fabrica um banco de efeitos sonoros: ele é uma obra, mas também um instrumento para que outros possam criar música. Você cria um trecho de música, isso já é uma obra. Mas é também matéria prima que outros poderão utilizar. Perceba que existe, o tempo todo, esse papel duplo. È um fenômeno presente em toda a cibercultura. Essa noção de dupla face. Por exemplo, você. cria um site web. Um site web é um conjunto de informações. Ao cria-lo, você. acrescenta informações ao estoque de informações já disponíveis. Mas, ao mesmo tempo um site oferece certo número de links com outros sites web.Trata-se de um instrumento para navegar na informação, e não apenas de um instrumento de informação. Acho que a dissolução da separação entre o instrumento de produção e a obra é algo própria à cibercultura. Todas as obras podem se transformar em instrumentos de produção, podem ser considerados como obras, pois eles moldam a sensibilidade ou a capacidade de produzir mensagens . portanto, há uma espécie de difusão da criatividade e, finalmente, é por isso que a noção de autor ou artista não digamos que desapareça mas começa a ser questionada e passa um pouco para o segundo plano uma vez que a produtividade e a criatividade estão no processo coletivo. Isto não quer dizer que talento, originalidade e inspiração não são necessários. Provavelmente sempre precisaremos disso. Mas há um deslocamento dessa noção de criatividade em direção aos processos coletivos e podemos perceber nisso muito bem na música tecno.

Quando se fala da música tecno, não devemos acreditar que este seja um gênero particular e bem definido. É certo que a música tecno é a música que toca nas raves tomamos ecxtasy e vamos dançar ritmos extremamente mecânicos, até mesmo industriais. Isso é somente uma das dimensões do fenômeno. Na verdade, podemos dizer que toda a música contemporânea está se tornando música tecno e que entre os diferentes gêneros por exemplo acid-jazz, tecno, hip-hop, new age, etc. Existem cada vez menos fronteiras entre todos estes gêneros e vivemos um processo de expansão da consciência musical, em que as distinções entre os gêneros têm cada vez menos importância ."

Recorte de uma entrevista com o filósofo francês Pierre Levy ao jornalista Florestan Fernandes Jr. para a série “As Formas do Saber” In:
http://www.saplei.eesc.usp.br/sap5865/leitura_semanal/PIERRE%20LEVY_arte%20e%20pensamento.htm

2 comentários:

comentarista disse...
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Kaos com K disse...

As montanhas e as águas
Mestre Eihei Dogen (1200-1253)
Fundador da escola soto zen

A água não é forte ou fraca, seca ou molhada, movente ou parada. Fria ou quente, existente ou não-existente. Ilusão ou iluminação. Quando se encontra no estado sólido, é mais dura que o diamante mais duro. Quando derrete é mais macia que o leite mais suave. Portanto é por isto que não devemos duvidar da realização da virtude da água. Devemos agora observar e estudar a água nas dez direções do universo. Não é o estudo da água vista por deuses e homens, mas ao invés, o estudo da água, quando vista pela própria água. Já que existe a prática e iluminação da água mesma, existe um método para achar a água da água. Devemos realizar o caminho de nos acharmos através de nós próprios. Outros devem estudar outros, estudando o caminho que se move livremente e transcende a si mesmo. Quando avistamos as montanhas e as águas, elas podem ser vistas de uma variedade de maneiras dependendo das circunstâncias. Os deuses a vêem como seus adornos, não simplesmente como água. Nós a vemos como algo diferente. Nós a vemos como água. Para eles é um adorno. Para nós é água. Algumas pessoas vêem a água como uma flor maravilhosa. Mas não conseguem a usar como uma flor. Já os demônios observam a água como se fosse um fogo enorme, ou sangue grosso, ou pus. Dragões vêem a água como um palácio ou como um salão exuberante. A água pode ser vista de muitas maneiras. Como as sete jóias preciosas, florestas, cercas, a liberação pura e não-maculada da natureza do Dharma. Como o corpo verdadeiro do homem, a forma corpórea e essência da mente, ou como a água vista pelos seres humanos. Diferentes pontos de vista, interpretações diferentes. Assim, o ponto de vista depende da visão do espectador. Investiguemos isto um pouco mais. Ver um objeto proporciona muitas visões diferentes, ou será que isto ocorre por que pensamos erradamente que um objeto possui formas as mais variadas? Devemos estudar isto cuidadosamente.