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sábado, 6 de junho de 2015

Dez pontos-chave da inovação de #Manuelamania

link uninomade

Por Bernardo Gutiérrez, no Yorokobu | Trad. UniNômade
Dez pontos sobre a campanha meteórica de Manuela Carmena, provável vencedora das eleições municipais no domingo na capital da Espanha, pelo Ahora Madrid, plataforma municipalista inspirada pelo Barcelona en comú e outras experiências organizativas inovadoras pós-15M.
A #ManuelaManía conquistou as redes sociais. Manuela Carmena, candidata da frente cidadã #AhoraMadrid às eleições municipais de Madri, passou de desconhecida a ícone pop. A onda de criatividade — pôsteres, ilustrações, vídeos, música — deram muito o que falar nas mídias. Mas a explosão deste manuelismo em rede tem muitas camadas, detalhes tecnológicos e estratégias inovadoras que vão mais além da criação artística.
Há duas décadas, trabalho com tecnologia, internet e redes. E confesso que não tinha visto uma campanha tão surpreendente em nenhuma eleição. O #YesWeCan que catapultou Barack Obama em 2008 foi um primeiro case de estudo de mobilização e política do tipo do it yourself (DIY), que incentiva a auto-organização dos militantes. A onda verde do candidato ecologista Antanas Mockus, que quase o levou à presidência da Colômbia em 2010, superou em efervescência o #YesWeCan.
Apesar disso, nenhum dos dois casos chega sequer perto do fenômeno explosivo de Manuela Carmena, impulsionado em parte pelas campanhas independentes da cidadania, como oMovimento de Libertação Gráfica de Madri ou Madri com Manuela. Neste artigo, analiso em dez pontos as inovações formais, tecnológicas, narrativas e estratégicas do ecossistema de campanhas de Ahora Madrid:
1. Isto não é um partido. O formato “confluência” passará à história como uma das primeiras formas pós-partido. Desde o surgimento de EnRed em Madri, até a consolidação de Ahora Madridtodo um processo.aconteceu. Do EnRed passamos ao Municipalia. Deste, na sequência do Guanyem Barcelona [atual Barcelona en Comù],  ao Gañemos. A negociação desta iniciativa cidadã com diferentes partidos tinha um ponto inegociável: o resultado final não poderia ser, simplesmente, um partido político. Tampouco uma simples frente ou coalizão política. O sistema de escolha dos candidatos deveria passar pelas primárias. O formato “confluência” de Ahora Madrid, uma fórmula que soma e multiplica sem descanso, agrega e não compete com aliados, é uma novidade no panorama político mundial.
2. Programa participativo. O programa de Ahora Madrid foi cultivado em rede de maneira colaborativa, apelando à inteligência coletiva de que fala o filósofo francês Pierre Levy. Diretamente inspirado na ferramenta Propongo, que por sua vez inspirou ferramentas de wikigoverno na Islândia, a plataforma programa.ahoramadrid.org tem um formato “agregador”. Qualquer pessoa pode enviar propostas durante meses à dita plataforma. As propostas, que são votadas pelos usuários, se dividem entre Mais VotadasMais Consenso e Mais Debatidas. A plataforma está baseada em software livre e aproveitou o código fonte de Gañemos Zaragoza.
3. Autofinanciamento. Ahora Madrid renunciou a financiar-se com empréstimos bancários. Por isso, colocaram em marcha uma campanha de microcréditos e doações de particulares, funcionando com a hashtag #FinanciaMadrid na plataforma financia.ahoramadrid.org. A iniciativa abre um caminho quase inédito na Espanha entre as formações políticas.
4. Do boca à boca ao peer-to-peerA filosofia de Ahora Madrid, com uma carência estimada de 150.000 euros, 100 vez menos do que o financiamento dos outros partidos, tem em seu DNA formador a filosofia DIY, o tão falado “faça você mesmo”. Aliás, se aposta agora no mais contemporâneo “faça isso com os outros” (DIWO). Você é a campanha tem sido o lema/método. A filosofia do boca à boca mais clássico, que se encaixa totalmente com o denominado peer-to-peer, se disseminou por redes e territórios. De par a par, de boca à orelha, de bicicleta à bicicleta. A plataforma independente Madrid com Manuela, uma das responsáveis pelo transbordamento criativo e subjetivo, lançou várias iniciativas para convencer de maneira pessoal a amigos e familiares. A primeira foi: “1 = 10“, para que cada um traga para a causa dez amigos ou familiares. A segunda apela para que se contasse sobre a campanha aos outros, à mãe, pai, amigos… como uma estratégia.
5. Auto-organização. A auto-organização de diferentes coletivos, redes, movimentos cidadãos ou fluxos espontâneos foi a tônica da reta final da campanha. O surgimento do Movimento de Libertação Gráfica de Madri e da plataforma Madrid con Manuela, articulados de forma independente a partir da sociedade civil, trouxe outra chave: a campanha de Ahora Madrid é um ecossistema, uma malha em que a mensagem não está centralizada pelas contas das plataformas oficiais. Os “processos emergentes” de que falava Steve Johnson, ou os “arranjos humanos” formulados por Kevin Kelly, em seu clássico Out of control, floresceram na reta final da campanha de Ahora Madrid, de maneira surpreendente.
6. Candidata apropriável. Atreva-se a ser Manuela. Be Manuela, be a hero, #SomosManuela. As redes e as diferentes camadas das campanhas transformaram a candidata Manuela Carmena numa coisa apropriável por muitos. Tom Himpe, em La publicidad de vanguardia (bíblia do novo marketing), destacava o “seja possível” como uma das tendências do novo século. Por outro lado, a identidade coletiva das teorias e práticas da multidão e da era da rede estão muito presentes na #ManuelaMania. As campanhas oficiais de Ahora Madrid jogaram à perfeição com isso. A plataforma AhoraManuela.org, que usava o Ahora Tú, apostou em criar uma candidata apropriável.
No vídeo Alcaldes Vosotros, em que cidadãos se colocavam máscaras de Manuela Carmena, também era apontada a identidade coletiva. As máscaras e caretas de Manuela Carmena distribuídas pela plataforma Madrid con Manuela e a hashtag #SomosManuela (que foi tendência na Espanha durante oito horas e em vários países do mundo) também foi nessa direção. Especialmente disruptiva foi a comunidade de Facebook Dou minha cara a tapa por Manuela, que incentivava a troca de fotografias dos perfis pessoais por ilustrações ou fotos de Manuela Carmena.
7. Transmídia. Já correu muita água por debaixo da ponte desde que Henry Jenkins publicou o livro Convergencia Cultural. Em 2006, o storytelling transmedia (algo assim como uma narrativa multiplataformas) começava o seu trajeto do cinema aos videogames, televisão e blogues. Apesar disso, com a massificação das redes sociais, os smartphones e os territórios híbridos (internet e espaço físico), a transmídia ganhou novas dimensões. A #ManuelaMania usou técnicas sofisticadíssimas de transmídia e multicamadas (um termo bastante em voga).
A partir do Twitter, se incentivava a participar em grupos de Facebook; do Facebook, por sua vez, se buscava a transversalidade entre as plataformas; desde WhatsApp ou Telegram se tinham viralizado conteúdos em grupos, do Youtube se deu um salto à televisão, do Soundcloud(algumas canções compostas exclusivamente para a campanha) Manuela Carmena chegou às emissoras de rádio… Do Instagram se conecta a outro perfil de usuário, mais jovem e com outras plataformas. O perfil que alguém abriu em Tinder, de uma Manuela Carmena de 21 anos que envia um mensagem convidando a votar, é uma das iniciativas mais surpreendentes: “Não sou Manuela Carmena mas estou aqui para conhecer gente. Somente queria contar a você que no domingo podemos começar a mudar muitas coisas em Madri.”
A remistura, outra das característica da convergência cultural segundo Henry Jenkins, tem sido um dos métodos mais explorados: Chuck Norris cansado do debate em Telemadrid, “A liberdade guiando o povo” de Delacroix em versão castiça, as capas dos discos dos Sex Pistols com Manuela, cartazes de filmes famosos… Nem os personagens de Star Wars se livraram das remisturas manuelistas… Remistura e culture jamming em estado puro.
8. Territórios. O caminho ao MundoReal (TM), segundo um já mítico artigo de @Ciudadano_Zero, é árduo. Pensar que uma viralização nas redes digitais é suficiente para ganhar uma campanha é uma miragem. “Se chegar somente até aqui, não está conseguindo uma verdadeira viralidade, senão simplesmente endogamia”, afirma @Ciudadano_zero. O componente territorial de Ahora Madrid é um de seus grandes acertos. Por um lado, o ecossistema de nós de Ganhemos herdou um tecido social do 15-M nos bairros.
Antes do início da campanha, Ahora Madrid estava realizando encontros nos bairros. E em todas as campanhas lançadas, o território tem sido uma plataforma central. #ProyectoresConManuela projeta imagens da candidata de Ahora Madrid. Madrid  con Manuela organiza sprints para colar cartazes e procissões com criações gráficas, e incentiva pessoas que falem com seus vizinhos no MundoReal (TM). Existe, inclusive, um mapa no GoogleMaps chamado Manuela y tú, em que se mapeiam ações pró-Manuela.
9. Ruptura simbólica. A irrupção da criatividade na campanha cidadã em apoio à Ahora Madridativou algo chave em qualquer campanha: a emotividade. A cor e o aroma do Hino à Manuela Carmena, minha prefeita, “uma adaptação rumotrônica-easylisteningliungelizard do hit de Julius Church”, desmonta qualquer narrativa antagonista contra a candidata. A canção Manuela, de Belén Coca, uma remistura do clássico de Julio Iglesias, também desorganiza a campanha dos partidos clássicos, em que o ataque e a projeção do negativo sobre o rival é habitual.
A disrupção simbólica das toneladas de criações gráficas geradas ao redor de Manuela Carmena tem um calculado intento de dar a volta no estado anímico da Espanha da crise. Manda o otimismo, o entusiasmo, o coletivo, o desejo de mudança. O evento Festão pela democracia em Madrid, que se abebera transversalmente do “se não posso dançar não é a minha revolução” de Emma Goldman, supõe um chega-pra-lá na política clássica.
Convocado para o domingo, 24, às 22 horas, convida a dançar em cada praça, a dançar por Manuela: “O rumor já manda sinais. A nossa vingança será sermos felizes. No próximo #24M começa a mudança. Dança na sua praça. Dança por Manuela. Venha com amigos. Leve confete. E purpurina. Um ingrediente básico: entusiasmo. O Festão durará quatro anos (e os que virão).”
10. O meme não é a mensagem. Jason Rowan, autor do livro Memes, inteligência idiota, política rara e folclore digital, é uma entrevista recente, fala da importância dos memes na atual campanha: “A memesfera cria um rumor constante ao redor dos debates, personagens ou eventos que acontecem na política formal.” Joss Hand, em seu artigo O meme não é a mensagem, alerta sobre a insuficiência dos memes virais para a consecução de objetivos sociais ou políticos. O meme cumpre a sua função catártica e disruptiva, mas, em palavras de Joss Hand, “são necessários movimentos alternativos que possam comprometer-se com uma contraofensiva em longo prazo, para influenciar a opinião pública.”
As campanhas da #ManuelaMania desenharam uma dupla camada de memes e mensagens em longo prazo extremamente efetiva. Julio Iglesias projetado numa parede pedindo o voto a Manuela (que era o título de uma canção sua) é um meme que rompe o dissenso contra Ahora Madrid e torna visível a nova camada de significados, propostas e expectativas, escondidas pelo telão dos grandes meios de massas.

ADA, PREFEITA DE BARCELONA: "A LUTA É GLOBAL"

ADA, PREFEITA DE BARCELONA: "A LUTA É GLOBAL"
(a partir de 11:30 na entrevista ao DemocracyNow)
"Existe uma continuidade de lutas nos últimos 15 anos. Desde o final dos anos 1990 e começo de 2000, um longo ciclo de protestos começou e ele continua até os dias de hoje: o movimento antiglobalização, o movimento internacional contra a guerra, o movimento dos indignados, várias lutas por moradia, por paz. Todas essas mobilizações que aconteceram não apenas aqui, mas numa escala global, têm muitas coisas em comum. Primeiro, a dimensão global: a percepção que os nossos problemas políticos e econômicos têm uma dimensão global, de maneira que precisamos trabalhar juntos em rede. Somos uma única realidade econômica global e é essencial trabalhar em alianças. Segundo, a necessidade de democracia real, a percepção que, ainda que antes tivéssemos instituições democráticas, compartilhamos a sensação que as decisões não são tomadas pelo parlamento, mas pela direção das empresas e instituições internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, que são profundamente antidemocráticas, que as pessoas não controlam, e que decidem contra a própria cidadania, gerando miséria pelo mundo. A percepção que a democracia foi sequestrada provocou muitos levantes, muitas mobilizações de base, "desde baixo", em busca de representação direta. A democracia formal não é suficiente, não nos representa, e portanto precisamos encontrar novas formas de participação política em que cada um seja ator, em que cada pessoa possa contribuir diretamente. Todas essas mobilizações nos últimos 15 anos, que cada vez mais usam as tecnologias, a internet e as redes sociais, perseguindo formas inovadoras e diretas de comunicação, em certa medida, atualizaram a democracia, atualizaram as formas de participação política. Essas mobilizações têm muitas expressões distintas em diferentes movimentos pelo mundo, mas claramente existe um excesso que une todas elas."
(via Javier Toret Medina) In BH em Comum

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Quatro anos de 15M: é hora de partido?

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Por Guillem Martinez, no El País,  em 15/5/15 | Trad. Silvio Pedrosa
Desde o movimento do 15 de Maio (15M) de 2011, se produziu uma mudança social e cultural inesperada, única na Europa, imprescindível para entender a crise política espanhola. Ao longo destes quatro anos, o 15M evoluiu. Ultimamente parece estar adotando formas políticas. É o passo dos movimentos sociais às instituições. É assim? que resultado este passo está gerando? no que se traduzirá? em uma renovação geral da política? em uma ruptura? em uma mudança significativa? Este artigo cede a palavra a diversos participantes do 15M, aquele movimento sem líderes, que agora protagonizam ou apenas observam o nascimento de partidos e frentes eleitorais que buscam se vincular, de uma forma ou de outra, àquele movimento. Foram propostas duas perguntas. Suas respostas podem esclarecer o estado da questão.
Perguntas:
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Respostas de Ada Colau (Barcelona, 1974), encabeça a lista eleitoral de Barcelona em Comú. “No 15-M estava na manifestação com meu filho, que só tinha um mês. Nasceu em 15 de abril.”
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
É um passo lógico, necessário, ainda que nem tudo se acaba nas eleições. Primeiro tomamos as praças, agora é preciso retomar as instituições, para democratizá-las e colocá-las a serviço do bem comum. Em breve teremos de avançar, dentro e fora das instituições, para exercer a democracia real e a soberania.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Não vai impor, o processo que se produz já impõe, já estão embutindo uma ruptura, porque, pela primeira vez em décadas, a gente está sendo protagonista, e porque, pela primeira vez, as eleições não têm um resultado previsível.
Respostas de Xavier Domènech Sampere (Sabadell, 1974), historiador da UAB. O seu último livro foi: “Hegemonias, movimentos de resistência e processos políticos” (Akal, 2014). Membro deProcés Constituent. “Na semana do 15 de maio de 2011 me encontrava na manifestação do dia e, pouco depois, na Praça Catalunha em Barcelona.”
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
Não falaria diretamente em “passo lógico”, no sentido de causa e consequência, mas sim em fenômenos relacionadas que se inscrevem no mesmo marco: a crise de legitimidade que pode se tornar crise do regime. O 15M demonstrou a agudeza da crise de forma espetacular e lançou as bases para um novo ciclo social, cultural e político de longa duração.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
A manutenção das velhas políticas, apesar do seu descrédito, se assenta na crença que não há alternativa a elas, apenas recombinações. A construção de uma alternativa socioeconômica e política global requer plausibilidade e nisto as experiências locais podem exercer um papel fundamental: criar de forma interconectada novos princípios de plausibilidade.
Respostas de Íñigo Errejón Galván (Madri, 1983), Secretário Político de Podemos. “Na mesma tarde do 15-M acabara de chegar a Madri, após dar aula em Quito. Passei na manifestação esperando, fundamentalmente, apenas outra manifestação qualquer e no 18-M, dia em que a Junta Eleitoral proibiu a concentração na Puerta del Sol, defendi a minha tese de doutorado.”
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
Não era um passo necessário e não estava, em absoluto, escrito que tinha que acontecer. Por um lado, alguns conteúdos, reivindicações e ‘estilos’ do 15M já haviam chegado às instituições. Uma parte do poder constituído e seus atores aprenderam que deveriam incorporar algo das razões do 15M para renovar a sua legitimidade. Por outro lado, em uma situação de crise de regime, mas não de crise do estado, nenhum protesto nem construção de contrapoder “por fora” das instituições basta para fazer precipitar a mudança política. Por isso nasceram iniciativas de ocupação de posições no interior do estado.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
As duas coisas. A tensão entre ruptura e renovação ampliada da ordem não se resolve ética ou esteticamente. Não é uma questão de preferências pessoais ou ideológicas. Será o resultado de um equilíbrio de forças entre a capacidade dos setores dirigentes para conter, dispersar e integrar; e dos que trabalham pela mudança para agrupar, seduzir e articular uma vontade popular nova que levante um projeto de país que coloque no centro suas maiorias sociais.
Respostas de Marina Garcés (Barcelona, 1973) é filósofa e professora da Universidade de Zaragoza. Seu último livro: Um mundo común (Bellaterra, 2013), promove o coletivo de pensamento Espai em Blanc. “Passei o 15-M entre a praça do Pilar e a praça da Catalunha. O 27 de junho (quando tentaram desalojar a acampada de Barcelona) gritei, desde a Puerta del Sol: “Se Barcelona não tem medo, Madri também não tem”.
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
Não considero que o que estamos vivendo seja um passo do 15M às instituições. Respondem a lógicas e a sentidos de politização distintos. O 15M questionou a representação e a delegação políticas e abriu a possibilidade de politizar todas as frentes e dimensões da vida. O desafio eleitoral atual é, mais precisamente, de uma mudança necessária dentro do sistema de partidos e que aceita seus limites e condições.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Mas que renovação ou ruptura, interrupção: as novas plataformas eleitorais são uma ferramenta necessária, hoje, para interromper a lógica destrutiva do capitalismo e de seus partidos políticos. A partir de agora, é a tarefa de nos apropriarmos de nossas vidas e transformá-las. Essa é a tarefa que o 15M lançou nas ruas e aos lugares comuns de trabalho e de vida e que desde estes lugares deve seguir nos interpelando.
Respostas de  José Manuel López Rodrigo (Madri, 1966) é engenheiro agrônomo. Está na direção de ONGs (Cáritas, Fundação Tomillo). É diretor-geral da fundação pública Pluralismo e Convivência (Ministério da Justiça). Encabeça a candidatura do Podemos à comunidade de Madri. “No 15-M estava em Madri. Participando em algumas das concentrações.”
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
A cidadania saiu às praças mostrando uma indignação que não era homogênea; era política, econômica, social, cultural, educacional… a esfera pública a ignorou e sua única resposta foi que a política deveria ser feita através dos partidos. O ciclo d mobilizações se traduziu em iniciativas locais e no surgimento do Podemos. Aqui se produziu um diagnóstico da crise certeiro e socialmente acertado. Passar agora ao ciclo de propostas é o lógico.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Trata-se de passar de uma posição reativa – “destituinte” –para defender a saúde, a educação, o emprego, a uma posição proativa – “constituinte” – para melhorar a saúde, a educação e o emprego. Não se trata de renovação ou ruptura; a ideia central é fazer as instituições olharem para a maioria social, governar para a maioria. Fazer entrar ar fresco.
Respostas de Emmanuel Rodríguez (Madri, 1974) é editor e ensaísta. Seu último livro é; “Por que fracassou a democracia na Espanha?” (Traficante de Sueños, 2015). “Estava na manifestação no 15-M. Posteriormente, me engajei ativamente na Acampada da Puerta del Sol”.
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
A necessidade de ter um impacto significativo naquilo que tradicionalmente se chama o “poder” é um requisito de qualquer movimento de reforma ou mudança. A questão reside, apesar disso, na forma desse “passo institucional”: tomar as instituições pela via eleitoral e pelas políticas progressistas? pressão sobre as instituições a fim de transformá-las (democratizá-las) em um sentido constituinte? posições eleitorais que se pensam como contrapoderes políticos conectados organicamente com as mobilizações sociais?
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
A balança da mudança política se move, hoje, entre processo constituinte (democracia, fim da austeridade), que se articulou como demanda comum no 15-M, e regeneração democrática, concebida como rearranjo das elites, controle da corrupção e nova meritocracia. Os processos locais (autônomos e municipais), por muita que seja sua autonomia, não deixa de estar travados na mesma disjuntiva.
Respostas de Raimundo Viejo Viñas (Vigo, 1969) professor universitário e editor independente. Membro do Podemos e candidato na lista Barcelona em Comú. “No 15-M estive nas praças, primeiro na Puerta del Sol, por acaso, com Pablo Iglesias e Íñigo Errejón, e depois na Catalunha.”
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
Mais que um passo, vejo como uma interferência lógica: o regime atual não é o regime que o 15M deseja. A total falta de diálogo por parte do establishment forçou o passo na direção da arena institucional do regime. Foi o autoritarismo do regime que impôs o salto eleitoral. O desenvolvimento da política do movimento passa por não deixar de lado a máquina legislativa, como se os efeitos das políticas públicas não tivessem nada a ver conosco. Mas, para isso, falta empoderamento, outras organizações, outras práticas. Não valem os partidos, mas tampouco o velho ativismo. Entramos numa fase de mutação intensiva e democratizante das formas de fazer política.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Uma tensão entre ambas. Os incentivos para a acomodação estão presentes, ainda que não como nos anos 1980. Diferentemente daquela época, o austerícidio não dá muita margem para tal. A entrada nas instituições do regime marca já (apenas momentaneamente) uma mutação: jubilação das elites (começando por Juan Carlos I), promoção de novas marcas (Ciudadanos¹), imitação de soluções procedentes do movimento (códigos éticos, mandatos limitados, etc.) Nas instituições estas mudanças serão mais difíceis, pois não dependerão da vontade popular. Teremos que aprender a lutar nesse terreno tão difícil. A chave está em não deixar de ter sempre um pé fora dele.
Respostas por  Guillermo Zapata (Madri, 1979) é roteirista e membro da lista Ahora Madrid. “No 15-M estive na manifestação e logo estava morando na acampada do Sol”.
1. O passo do 15M às instituições é um passo lógico?
Não há um passo lógico. O que ocorreu foi um processo de experimentação que se chocou com uma institucionalidade incapacitada para a escuta. Produziu-se, então, um bloqueio e o problema concreto é como abrir novamente a situação. O problema é que o lugar da instituição é o lugar onde as coisas podem abrir-se totalmente ou fechar-se totalmente. É um risco, mas também era um risco cercar o Congresso e nesse dia poderíamos ter inaugurado um cenário distinto, de fechamento, mas foi justamente aquele passo que abriu a situação. Então, não há lógica, mas tem sentido entrar, aqui e agora, neste assunto. Mas também há que reconhecer que o 15-M é muito mais que este momento concreto ou estas ferramentas concretas.
2. Que lógica este passo vai impor à política espanhola? renovação? ruptura?
Apostar na ruptura é apostar, creio eu, na vida possível. O questão é que estamos no “entremeio”, no qual romper tem que ser uma prática e não tanto um plano que já tenhamos traçado. Romper é fazer vivível o que é invivível, e por isso temos que ser muito ousados e muito prudentes ao mesmo tempo: ousados para fazer transbordar o marco daquilo que se apresenta como a única forma de vida possível e prudentes para que esse transbordamento possa ser vivido pelas maiorias, para cuidá-las. Uma posição talvez mais lenta, mas também mais desafiadora de construir aquilo que faz possível a vida desde todos os pontos nos quais a vida se realiza.

Nota:
1. Partido mais à direita no espectro político-ideológico tradicional, surgido na esteira do movimento 15M como uma espécie de Podemos descafeinado (N. do T/E.).

terça-feira, 26 de maio de 2015

5 notas iniciais para pensar o que (nos) está passando.

5 notas iniciais para pensar o que (nos) está passando.

1.- Nunca antes partir de um não saber teve tanta materialidade, tanta força e tanto sentido.
2.- Agora madrid é um processo anormal que não resiste interpretações parciais porque todas levam alguma verdade e à vez não explicam. Se há uma potência em isso é essa condição de anomalia, que devemos mimar.
3.- Enfrentamos a entrada em uma instituição vertical e concebida para triturar paixões alegres. A tensão se mede entre gestão de o que há e inovação política.
4.- A alegria e o desejo só podem ser articulada mais rápido e com mais potência por fora do município e temos que pôr os meios para que assim seja.
5.- Manuela carmena é hacker.

Continuaremos a informar.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

DIREITO DE RESPOSTA À VEJA PELA DIFAMAÇÃO DO PODEMOS NO BRASIL (1)

DIREITO DE RESPOSTA À VEJA PELA DIFAMAÇÃO DO PODEMOS NO BRASIL (1) via facebook

O Círculo de Podemos Rio de Janeiro vem manifestar indignação à nota publicada em 9/5/2015 pela Revista Veja, assinada pelo colunista Rodrigo Constantino, aludindo a uma outra reportagem, no dia anterior, 8/5/2015, por Duda Texeira, na seção Mundo da mesma revista, contra a qual manifestamos do mesmo modo o nosso sentimento.

Nos textos, o Podemos é acusado de estar associado ao tráfico internacional, num esquema que envolveria Bolívia, Venezuela e membros notórios de Podemos. A única fonte citada para a grave acusação é o testemunho do coronel do exército boliviano Germán Carmona (e não "general", como erroneamente consta na Veja), que servia num hospital militar na região de Santa Cruz, atualmente solicitando refúgio na Espanha. Segundo o documento "ultrassecreto" citado pela Veja, Carmona denuncia que o Podemos tem "o objetivo de financiar uma nova organização política com a finalidade de, uma vez que conquistem o governo, seja constituída uma porta direta de entrada da cocaína na Europa."

Nenhuma evidência é apresentada. Nenhuma outra testemunha corrobora a história. Apesar disso, três jornais de grande circulação na Espanha, o El Mundo (2), o La Vanguardia (3) e o La Gaceta (4) elevam a história à condição de manchete, em direta repercussão da acusação feita pelo militar boliviano. Somente o último, no interior da matéria, comenta que nenhuma informação foi comprovada. Por que tamanho interesse em repercutir o solitário depoimento do coronel desertor lançando essa nuvem de acusações e suspeitas sobre um partido recém criado?

O que talvez nem todos saibam é que a Espanha vive um dos mais importantes processos eleitorais de sua história. Neste mês, acontecem eleições em nível municipal e das regiões autônomas, em que pela primeira vez o bipartidarismo tradicional no país, desde 1978, dá mostras de ser quebrado. No segundo semestre, haverá as eleições gerais, que definem a composição do próximo governo nacional. O Podemos é um dos partidos que, inspirado pelo movimento do 15 de Maio de 2011, se apresenta na disputa com chances reais de vencer, defendendo o protagonismo cidadão e o reposicionamento do estado na economia, hoje controlada pela casta e suas medidas de austeridade. Não só pelas propostas de enfrentar a crise econômica com um resgate cidadão, como também pela ascensão nas pesquisas de intenção de voto, o Podemos passou a se tornar uma pedra no sapato da "classe política" tradicional do país.

Nesse contexto, o Podemos tem sido alvo de uma campanha de difamação sistemática manejada pela grande mídia corporativa, que parece ter chegado ao Brasil. A atual presidenta da comunidade de Madri, Esperanza Aguirre, associou o Podemos em várias ocasiões a grupos terroristas, declarações difamatórias pelo que ela terá de responder ante a justiça espanhola (5). O custo para efetivar essa demanda judicial, de € 10.043, foi ultrapassado pelo Podemos em menos de três horas de campanha de crowdfunding por meio de seu site oficial (6), segundo uma plataforma transparente de financiamento pela cidadania.

A conexão Podemos-Bolívia, na verdade, não tem nada que ver com tráfico internacional. De fato, além das acampadas e novos movimentos do 15-M, o Podemos assume como referências as experiências bem sucedidas de governos da América do Sul, em seu combate à pobreza e ao neoliberalismo. Na década passada, membros de Podemos atuaram como pesquisadores e consultores junto dessas experiências que, sem negar as suas complexidades e limitações, trazem ensinamentos importantes sobre inclusão social e empoderamento cidadão ao mundo todo. Por muito tempo na Europa vinha prevalecendo uma visão de que não havia nada a aprender com a experiência de nações em desenvolvimento. O Podemos se propõe a corrigir essas lentes eurocêntricas da política.

O jogo sujo da velha política está agonizando na Espanha assim como no Brasil. A reportagem da Veja e o texto de seu colunista são o grito desesperado de uma ordem ameaçada em seus privilégios e vigarices. O Podemos estaria querendo converter a Espanha num portal de entrada para a cocaína plantada na América Latina? E por acaso hoje a Espanha não é um portal de entrada da cocaína? O atual presidente da Espanha já foi fotografado no barco Moropa, conhecido por pertencer a um dos maiores clã do contrabando da Espanha (7), e o atual presidente da Junta de Galicia, Alberto Nuñez Feijoo, foi fotografado num iate de férias com o contrabandista Marcial Dorado (8).

As conexões entre a política atual e o tráfico internacional não são nenhuma novidade. Nisso, temos que reconhecer a pertinência das palavras de Rodrigo Constantino: "A política é apenas um meio, um instrumento que criminosos usam para chegar ao poder e, com isso, gozar de maior margem de manobra para seus atos criminosos." Por isso, estranha a seletividade da indignação do colunista. Em 23 de março de 2015, na mesma Veja, ele justifica a sonegação fiscal e evasão de grandes quantias realizadas em contas do HSBC na Suíça (9), porque seria "justo" burlar a lei para "proteger" o próprio dinheiro. O que Rodrigo não conta na matéria é que o mesmo HSBC, banco sediado em Londres, usa o dinheiro dessas contas em operações de lavagem e financiamento de grupos terroristas na Arábia Saudita e cartéis de drogas no México. E esta informação não deriva apenas de uma única e conveniente fonte e seus sensacionalistas "documentos ultrassecretos", mas de uma sólida investigação internacional (10).

Mas além disso, não queremos nos render à farsa que reduz o problema mundial das drogas ao tráfico, como se a "guerra às drogas" não fosse ela própria um dos motores da lucratividade do negócio, gerador de mais violência e incentivador do comércio de armas. Baseados numa cidade conflagrada como o Rio de Janeiro, com tantas operações em comunidades e tantas vítimas, preferimos não nos nivelar a um noticiário sensacionalista como o da Veja, que se recusa a aprofundar o urgente debate sobre essa questão, em que tantas vidas se perdem.

A reportagem da Veja se insere numa longa tradição que associa partidos de esquerda ao crime organizado. A ideologia encobriria o interesse criminoso. Pergunta-se: a seletividade em denunciar o Podemos sem nenhuma base e ao mesmo tempo proteger o dinheiro remetido ilegalmente à Suíça não revela uma ideologia? Não é ideologia ignorar a complexidade de um debate para apresentar denúncias infundadas com o único propósito de desqualificar uma força política? Até aqui nada de novo. Novo é apenas o alvo do business de difamação, o Podemos, diante do fato que ele realmente ameaça as elites de sempre.

Nós, do Círculo de Podemos Rio de Janeiro, queremos entrar no debate de uma maneira mais inteligente e democrática, convidando a todos a participar, discutir e fazer uma outra política diferente dessa que a Veja representa.

Contato: podemosrj@gmail.com

Referências:

(1)http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/militar-boliviano-diz-que-podemos-seria-braco-do-trafico-venezuelano
(2)http://www.elmundo.es/internacional/2015/04/21/55366e42ca474143778b456d.html
(3)http://www.lavanguardia.com/politica/20150421/54430763371/coronel-boliviano-viaja-a-espana-para-pedir-asilo-politico.html
(4)http://www.gaceta.es/noticias/militar-boliviano-acusa-marioneta-chavismo-narcotrafico-10052015-1822
(5)http://podemos.info/admitida-a-tramite-la-querella-de-podemos-contra-esperanza-aguirre/
(6)http://www.elconfidencial.com/espana/2014-07-09/podemos-lanza-una-campana-de-crowdfunding-para-financiar-la-demanda-contra-aguirre_159220/
(7)http://www.infoguadiato.com/index.php?page=22&ampliar=3356
(8)http://ccaa.elpais.com/ccaa/2013/04/03/galicia/1365012667_497777.htm
(9)http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/corrupcao/swissleaks-separando-o-joio-do-trigo-ou-nem-todos-que-abriram-contas-na-suica-sao-ladroes/
(10)http://www.nytimes.com/2012/12/12/opinion/hsbc-too-big-to-indict.html?_r=1
http://www.forbes.com/sites/nathanvardi/2012/12/12/forget-the-drug-dealers-and-iran-hsbc-is-having-a-great-year/