terça-feira, 21 de julho de 2015

A financeirização e as mutações do capitalismo do IHU

A financeirização e as mutações do capitalismo

Para Yann Boutang, a financeirização está transformando metodicamente um dos pilares do capitalismo, a relação assalariada, que também é uma das chaves da exploração nesse sistema

Por: Márcia Junges e Leslie Chaves| Tradução Vanise Dresch

Para além do econômico, a financeirização tem ampla influência na organização social, atingindo aspectos como a biosfera, “que diz respeito à produção do meio vivo em geral”, e a noosfera, “que cobre todas as atividades mentais, espirituais, culturais”. Segundo Yann Moulier Boutang, apesar de serem menos destacados, tais impactos são profundos. “A produção de conhecimentos novos, a aprendizagem por meio de conhecimentos e aquela, mais delicada, do vivente por meio do vivente, por levantar questões éticas cruciais, ampliaram tanto a esfera pertencente ao econômico, que ela colocou em crise os principais instrumentos de avaliação a que recorriam os economistas (o valor trabalho, o valor utilidade, a medida do tempo, da produtividade, a imputação a indivíduos ou a entidades como as empresas da inovação, da eficiência)”, aponta em entrevista por e-mail à IHU On-Line.
Diante desse cenário, o sistema capitalista tem sofrido modificações significativas em comparação com a estrutura que apresentava na era industrial. De acordo com o economista, a financeirização é simultaneamente o cerne dessas transformações e do capitalismo em si. 
Ao longo da entrevista, Boutang aborda os reflexos da financeirização nos diversos campos da vida em sociedade, como a relação com as Tecnologias de Informação e Comunicação como meio para pensar alternativas para a construção de uma sociedade mais comprometida com o bem comum. “Tenho grande confiança no desenvolvimento de uma política mais sintonizada com as necessidades de nosso tempo, porque a revolução digital, ao contrário da revolução industrial, nos conduz agora a uma fase da humanidade capaz de abolir o trabalho como maldição bíblica para passar à atividade coletiva como liberação do homo oeconomicus”, frisa.
Yann Moulier Boutang participou ativamente do movimento de 1968. Em 1973, conheceu Antonio Negri, de quem permanece parceiro intelectual. Em 1974, criou a revista Camaradas, que desenvolve os temas da “Autonomia Operária”, conceito adotado então na Itália por militantes procedentes do operariado. Camaradas é um dos primeiros grupos do movimento autônomo na França. Após a autodissolução da revista, Boutang participa, de 1979 a 1981, do Centro Internacional para Novos Espaços de Liberdade - CINEL, uma iniciativa de Félix Guattari. È redator chefe da revista política, artística e filosófica Multitudes. Atualmente é professor de ciências econômicas na universidade de tecnologia de Compiègne e professor no Centro Fernand-Braudel da Universidade de Binghamton-New York, EUA.
De sua vasta produção intelectual, destacamos: De l’esclavage au salariat. Économie historique du salariat bridé (Paris: PUF, 1998), Le droit dans la mondialisation: une perspective critique (Paris: PUF, 2002), Le capitalisme cognitif. La nouvelle grande transformation (Editions Amsterdam, 2007) e L'Abeille et l'Économiste (Paris: Carnets Nord, 2010).
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Nos dias de hoje, quais são os impactos fundamentais da financeirização em nossa vida?
Yann Moulier Boutang - Vejo três tipos de impacto segundo a natureza dos setores afetados. A financeirização de tudo diz respeito, naturalmente, às atividades que chamaríamos de mercantis (comércio, indústrias manufatureiras, produção agrícola, indústrias culturais, indústrias financeiras como os seguros), mas ela imiscui-se também, de forma crescente, naquilo que a contabilidade nacional chama de setor não mercantil (gestão do Estado, das coletividades locais, das universidades, dos serviços públicos, entre os quais o da saúde, e das empresas). Mas há também um impacto talvez mais profundo e menos destacado que diz respeito à produção do meio vivo em geral (a biosfera planetária) e ao meio mais especificamente inserido no primeiro: a noosfera, que cobre todas as atividades mentais, espirituais, culturais. A produção, como já haviam pensado, faz muito tempo, os filósofos e os teólogos, não é somente a transformação da matéria, por meio da energia, pelo homo faber; ela abarca a geração das condições dessa produção: a linguagem, o corpo em boa saúde, a cultura e todos os laços que fazem de nós seres sociais. Hoje, porém, essa evidência acabou caindo no modelo reducionista da ciência econômica. A produção de conhecimentos novos, a aprendizagem por meio de conhecimentos e aquela, mais delicada, do vivente por meio do vivente, por levantar questões éticas cruciais, ampliaram tanto a esfera pertencente ao econômico, que ela colocou em crise os principais instrumentos de avaliação a que recorriam os economistas (o valor trabalho, o valor utilidade, a medida do tempo, da produtividade, a imputação a indivíduos ou a entidades como as empresas da inovação, da eficiência).

IHU On-Line - Em que medida o neoliberalismo é o fundamento, a base da financeirização?
Yann Moulier Boutang - Eu não colocaria as coisas nessa ordem. Pelo contrário, eu inverteria a ordem. O neoliberalismo, que, do liberalismo, só mantém o aspecto econômico, logo, o pior, porque logo se desembaraça do aspecto libertador dos direitos humanos, é apenas uma consequência subalterna, historicamente transitória, do regime de financeirização. Ora, a financeirização é, ela mesma, uma consequência da transformação profunda a que me referi na primeira resposta, e que resumo em minha tese do advento de um terceiro tipo de capitalismo, o capitalismo cognitivo. É porque o capitalismo descobriu o novo continente da polinização humana (da força produtiva das interações da multidão humana em sociedade), de trezentas a mil vezes mais produtiva que o antigo modo de produção dominado pelo modelo da mecânica, da energia de carbono, que ele precisa ampliar a finança, já inventada na era do mercantilismo, em Gênova, para cobrir o risco marítimo, a essa nova economia mundial. Em outras palavras, a multiplicação do crédito pelo mercado financeiro em relação aos fundos próprios (um coeficiente de alavancagem [leverage, em inglês] monetária de 30, em vez de 5) não é uma monstruosidade vinda do céu ou do inferno, e sim um pálido reflexo da descoberta de um novo Eldorado. Os GAFA  são os conquistadores do antigo mundo da economia industrial, embora seu evangelho seja bastante frustro (Don’t be evil de Google ) ou absolutamente desmedido em sua negação da finitude (a primeira versão do transumanismo californiano). Se a nova esfera da riqueza (e, portanto, do valor possível), como a polinização, vale, no mínimo, várias centenas de vezes o valor do Produto Interno Bruto - PIB comercial planetário, os antigos índices de multiplicador de crédito se tornam totalmente insuficientes para valorizar essa nova esfera, e os aprendizes de feiticeiro das salas de trading  dos bancos arremedam essa transformação fundamental. 
A finança é o governo par defaut  das externalidades positivas de polinização, e também das temíveis externalidades negativas de destruição de nosso oikos, nosso meio ecológico. O neoliberalismo imiscui-se nessa brecha aberta da antiga economia: ele permite avaliar, estabelecer tecnicamente um preço para o futuro e a massa em falta da economia (o continente das externalidades). Enquanto os Estados e a sociedade mundial não compreenderem o potencial produtivo da polinização humana, não medirem todas as consequências em matéria de valor (portanto, de prioridades), de novos e antigos bens comuns a serem instituídos, incentivados, protegidos em comum, em matéria de impostos, de regulação, o neoliberalismo prosperará como o único programa disponível. É nesse sentido que falo de um governo neoliberal par defaut, na acepção da informática: trata-se de um modo de governança ao qual recorre o sistema global, que tem horror do risco e da incerteza radical ainda mais, por falta de algo melhor. Fazer da finança e do neoliberalismo os inimigos número um e a última ratio da desordem na terra é praticar exorcismo obscurantista, é retardar a conscientização da realidade das transformações e dos potenciais libertadores que elas contêm, e da elaboração de políticas alternativas. 

IHU On-Line - Em que aspectos a pulsão de vida (e morte) do capitalismo, a acumulação, é um elemento importante para compreendermos essa financeirização?
Yann Moulier Boutang - Não gosto muito do uso do termo “pulsão de vida” ou, a fortiori, “pulsão de morte” para se referir a entidades que não sejam pessoas humanas e que não seja no plano psicanalítico. Além disso, não penso que a financeirização, outro nome do capitalismo (é seu cerne atual), seja suicida, nem dionisíaca, em relação à concepção apolínea e fria da racionalidade neoclássica. Enfim, ao contrário de certo marxismo vulgar mecanicista, a acumulação não é “a lei e os profetas” do capitalismo (o capitalismo mostrou, em sua história, ter sido capaz de destruir friamente quantidades gigantescas de capital físico e de capital intelectual quando seu poder esteve ameaçado — definido, como diz Foucault, como a capacidade de fazer com que alguém faça algo, no caso, os explorados). O capital e o capitalismo são uma relação social, uma relação, e não uma quantidade física de capital. Suas mutações, suas reações não são aquelas de um touro, nem de um patrão, tampouco somente as dos patrões coletivos. Acredito, como mostrou a escola operaísta, a meu ver, de maneira decisiva, que o capital como sistema complexo cujos agentes não passam de “trägers” (condutores) só é inteligível como reação e interação com o proletariado, a classe operária e, hoje, o mundo cognitivo ou das redes, a composição do capital intelectual vivo, e como controle dos impulsos e movimentos desse devir-classe, ele só pode ser compreendido como reação, retrocírculo, se assim podemos dizer, dentro dessa relação. Toda a história específica das relações (portanto, de força) capitalistas, as únicas que constituem o capital, o qual não é nem uma coisa nem dois atores preexistentes, só pode ser lida nessa dialética, e, além disso, com a opção metodológica, mais interessante do ponto de vista heurístico, de inverter as prioridades de ver, primeiramente, os movimentos a partir de baixo, para depois subir, em vez de partir dos níveis econômicos e técnicos do capital para deles deduzir o Estado, as classes sociais, os “subalternos”, logo, do economismo, que é um marxismo e um neoliberalismo igualmente vulgares. 
A realidade é mais simples e mais complexa ao mesmo tempo. Mais simples: o capitalismo como modo de produção, no momento em que parecia (apenas parecia) superar um antagonismo devido ao desaparecimento do “socialismo real”, deparou-se com um limite, o qual podemos chamar de morte, mas não uma pulsão de morte, e sim a morte do planeta, de nossa morada comum, a da biosfera. Essa manifestação cada vez mais nítida da consciência da finitude não dos indivíduos (ontogênese), mas do homo sapiens sapiens (filogênese), é a nova força que trabalha o par das relações de força das classes, o novo clinâmen [declinação], os antigos dominados e os sempre dominantes. Diante dessa emergência que, em economia, tem o nome de aumento do peso das externalidades negativas e positivas (estas últimas sendo pouco visíveis, ao contrário dos efeitos devastadores do crescimento capitalista), o governo da relação (a famosa governança) se expressa pela forma da finança e da financeirização, que permite incluir essas externalidades tanto para o bem como para o mal. A financeirização não é a pulsão de morte, ela é uma resposta “par defaut”, por falta (falta de alternativa), a essa finitude planetária e ao risco político que afeta a sobrevivência da relação capitalista, não mais do lado da exploração dos homens, mas do lado da exploração do planeta, que conduz à morte global. A finança em si mesma não é a pulsão de morte do capitalismo: ela representa sua forma de sobrevivência, de resiliência, portanto, é antes sua pulsão de vida, mas essa pulsão de vida está a serviço de uma relação que enfrenta agora, ela mesma, a questão da morte global da espécie na era do antropoceno. Ela pode ser qualificada de pulsão de morte somente em segundo grau, se considerarmos que a sobrevivência do capitalismo se dá em detrimento da sobrevivência global do mundo. E, por outro lado, no plano das externalidades positivas, trata-se mais de um instrumento que pode ser domesticado a serviço da vida global do planeta (financiando a transição ecológica e a despoluição dos resíduos nucleares e do lixo industrial que nos tornamos). 

IHU On-Line - Nesse cenário de financeirização, quais são os limites, desafios e possibilidades do capitalismo cognitivo?
Yann Moulier Boutang - A financeirização representa o triunfo desviado da consideração das externalidades, do invisível e do imaterial na produção pela humanidade de suas próprias condições de vida. Ela arremeda à sua revelia a força da polinização humana, única fonte verdadeira da riqueza (mas ainda não do valor), e a acuidade do risco ecológico maior no qual a hybris  capitalista mergulhou nosso planeta. Seus limites devem-se em larga medida ao seu poder de amplificação (que vemos nas bolhas financeiras infladas e rompidas) e de possibilidades de ganhos espetaculares, portanto, de acumulação de poder, que ela oferece à avidez, à cupidez humana quando se alia à inteligência. 
A financeirização é o braço armado, sinto-me tentado a dizer, da “nova grande transformação” que o capitalismo está efetuando, em detrimento do corpo do velho capitalismo industrial. Ela constitui, mais do que nunca, o cerne do capitalismo (aliás, ela sempre foi, como mostrou Braudel , o mercado sendo apenas uma consequência, uma fetichização quase religiosa de sua ordem, mas em um nível muito mais visível agora). 
Ao mesmo tempo, ela pode se tornar o melhor auxiliar para uma saída por cima, num sentido libertador, do capitalismo, o qual corresponde a um projeto historicamente datado de transformação do planeta. Ela está desgastando metodicamente um pilar, o pilar por excelência do capitalismo, a relação assalariada estável, que é também a chave do mecanismo da exploração.
A automação intelectual, com a robotização de múltiplos serviços graças à acumulação de big data  produzido pelos objetos conectados e às learning machines , está polarizando, reduzindo drasticamente o emprego (e até mesmo as relações convergentes na Europa e nos Estados Unidos, a tal ponto que já se prevê um aniquilamento dos empregos das classes médias nas próximas décadas) e, além disso, polarizando ao extremo o emprego entre, de um lado, tarefas pouco qualificadas, automatizáveis, ou tarefas de care  impossíveis de automatizar, e, de outro lado, tarefas muito qualificadas, inovadoras, inteligentes e rebeldes ao learning machines por serem singulares. 
Foi, em suma, o que Marx descreveu no texto mítico “Fragmentos sobre as máquinas”, nos Grundisse (São Paulo: Boitempo, 2011), que constituiu a base da reflexão operaísta nos anos 1960. O capitalismo, em seu centro, está abolindo o trabalho assalariado, retornando a uma atividade mercantil precária, sem cobertura social, sem proteção e, ao mesmo tempo, explorando socialmente a atividade não mercantil de polinização da interação comunicacional, linguística, científica, cultural, e até mesmo de fabricação nas fábricas digitais, nos fab labs . Com todo o potencial de revolta, de invenção de novos modos de vida e de relações produtivas alternativas. Toda essa nova transformação só será possível através de uma domesticação da finança de mercado, que representa algo totalmente diferente do que são as invocações rasas e piedosas a uma moralização do mercado, cujos limites pudemos avaliar oito anos depois da crise dos subprimes . Os novos resíduos bourbonianos, para usar as palavras de Keynes , não são mais o lastreamento da criação de crédito no ouro, mas a limitação dos investimentos em nome de uma austeridade absurda e, afinal, criminosa. 

IHU On-Line - Acredita que há uma hegemonia da economia sobre a política? Por quê?
Yann Moulier Boutang - A economia, dizia Lênin , é o político condensado. O atual primado de uma economia sobre as decisões de política econômica e sobre a moldagem da legislação (como o eterno aumento da flexibilização do mercado de trabalho) reflete duas coisas: a) a persistência de uma ideologia muito delimitada no tempo (entre 1950 e 1980, o monetarismo em particular) que, depois de ter conquistado posições universitárias sólidas, transformou-se em ideologia gerencial mais estatal; b) a resistência feroz da parte já subalterna da classe menos produtiva do capitalismo, e certamente não aquela do capitalismo cognitivo. Este está amplamente em guerra com os velhos setores reacionários do capitalismo industrial “bleu marine” [azul marinho] (jogo de palavras, em francês, que remete ao macacão azul usado pelos operários [bleu] e ao nome de Marine Le Pen, porque, hoje, mais de um quarto dos operários da indústria votam na extrema direita) em muitas áreas, entre as quais a “uberização” , a “googlelização”  são etapas em andamento. Ao cabo dessa nova grande transformação, a economia de produção terá sido infiltrada pela economia digital. A financeirização representa a liquidação e a liquidez da velha economia. O capitalismo cognitivo ainda não dispõe de uma economia política que lhe corresponda. Chegamos apenas ao novo quadro de Quesnay  dessa nova álgebra do valor econômico, e aqueles que refletem sobre as formas modernas de exploração, de servidão, sobre os novos vícios, as novas amarguras dessa economia que partiu rumo à conquista do céu, estão longe de terem criado novos instrumentos de luta e domesticação do dragão digital. 

IHU On-Line - Em termos gerais, é adequado analisar essa preponderância da economia sobre a política como um elemento explicativo do descrédito da política e da apatia dos eleitores?
Yann Moulier Boutang - É claro que a crise política reflete essa exasperação em relação a uma submissão beata ou muito tola das políticas às “leis da economia”, como se estas nos impusessem o famoso Tina de Margaret Thatcher (there is no alternative) . Os partidos conservadores, liberais, enfrentam uma situação revolucionária da economia. Tornam-se reacionários em querer retornar à era dourada industrial (que, aliás, foi extremamente árdua para os pobres, os humilhados e os ofendidos). Os partidos de esquerda comunistas e socialistas viram sucessivamente o comunismo entrar em colapso ou acabar no pesadelo de transições desvairadas para o pior do capitalismo liberal sem a democracia. O socialismo reduziu sua ambição (do modo como ainda a formulavam Jaurès , Blum , na França, ou a grande social-democracia alemã) a uma cogestão implícita de um capitalismo neoconservador moderado por uma preocupação de redistribuição limitada às classes médias. 
Em ambos os casos, a mola transformadora que fora a locomotiva do progresso e do modelo europeu, apesar de sua arrogância colonialista, rompeu-se. Uma pesquisa de opinião realizada em junho de 2015 mostra que 89% dos franceses não gostam dos partidos políticos. Os que se saem menos mal são os partidos com função “de tribuna”, como dizia Georges Lavau , isto é, contestadores, não gestores, como o Partido Comunista e, hoje, o Front National  (versão Jean-Marie Le Pen , o pai), seguido pelo centro e pelo Partido Verde, ambos marginais. O cenário europeu, no entanto, está mudando, com o crescimento de um populismo (desta vez, com governos como Erdogan, na Turquia, Orban, na Hungria, Marine Le Pen (filha), na França, o Skip party, no Reino Unido) que se expressa num soberanismo sem futuro, porque repousa em uma visão da economia que se mantém nacional num conjunto europeu cada vez mais federal de fato, mesmo que isso ainda não seja reconhecido. Felizmente, essa perspectiva pouco encorajadora é contrabalanceada pela saída institucional à esquerda, de Syriza , na Grécia, e de Podemos , cinco anos depois do movimento dos Indignados . Haverá uma conjunção, nos próximos anos, entre essas buscas de alternativas políticas reais para enfrentar o imobilismo das velhas receitas e para a renovação profunda da economia (via revolução digital) e, por fim, em último lugar, da economia que se encontra, hoje, na posição “ancilar”  da teologia na Idade Média e num papel extremamente conservador, para não dizer reacionário, que acabou assumindo no Renascimento.

IHU On-Line - Qual é o espaço e os limites da democracia nesse cenário?
Yann Moulier Boutang - A economia não pode mais limitar-se à economia mercantil e a um setor não mercantil público que repete todos os limites da economia mercantil. Ela tem de incluir as externalidades no cálculo econômico, isto é, aquilo que podemos usar como recursos, e em que condições. Isso, para salvar o planeta (a biosfera), que temos de transmitir aos nossos filhos e netos em um estado equivalente, no mínimo, àquele que recebemos (essa é a melhor definição do desenvolvimento sustentável). Para cumprir esse programa urgente e de uma complexidade temível, a economia deve apoiar-se na noosfera (toda a esfera da mente, da língua, da cultura) e cultivar a polinização das abelhas humanas e não os adubos químicos e os pesticidas (é fácil estabelecer uma comparação com a biosfera, os diversos psicotrópicos sendo os adubos químicos do cérebro humano, os pesticidas sendo o tratamento da loucura gerada por essa corrida em busca da produtividade, da exploração dos humanos). 
A revolução digital combinada com os saberes humanos, e não somente com a ciência, pode tornar-se o instrumento, o órgão de uma retomada pelas comunidades humanas de seu destino responsável. Ela pode ser não simplesmente a enésima oportunidade de “turbinar” os lucros, mas levar as sociedades complexas, históricas, globais a um aprofundamento radical da democracia. Desde que, obviamente, a horizontalidade das redes digitais não se feche em um novo poder aristocrático de especialistas, para depois se juntar ao poder oligárquico dos ricos. Desde que, também, se dote de novas instituições ou contrainstituições que redefinam a autoridade, dando-lhe um rosto humano (isso passará, certamente, por uma feminização maciça de um poder masculino demais e próximo demais dos chipanzés, em vez de prestar atenção no que acontece entre os bonobos !!), limitando-a por contrapoderes, descentralizando-a. 
Isso significa, por exemplo, não considerar qualquer recurso comum como sendo uma terra nullius, um domínio público do qual os interesses privados podem tirar proveito de forma inesgotável. Portanto, uma economia de partilha, um direito jurídico de sucessão sobre o status dos bens, uma preocupação com a reprodução do que é bem comum. Em suma, rever e reconstruir o interesse geral (Aristóteles), o que é o fundamento da política a partir do copyleft, de R.M. Stallman , das regras comunitárias de uso do meio de equilíbrio frágil, de Elinor Ostrom , da força produtiva das multidões (o pinguim do Linux, lembrado por Yoshai Benkler em The wealth of Networks (Londres: Yale University Press, 2007) ou por mim mesmo em L’abeille et l’économiste (Paris: Carnets Nord, 2010)). 

IHU On-Line - Que novas formas políticas surgem enquanto resistência e enfrentamento? Nessa lógica, como podemos compreender manifestações como o 15-M , o Occupy Wall Street , o Podemos, o Syriza e até mesmo os protestos de julho de 2013  no Brasil?
Yann Moulier Boutang - Tenho grande confiança no desenvolvimento de uma política mais sintonizada com as necessidades de nosso tempo, porque a revolução digital, ao contrário da revolução industrial, nos conduz agora àquele estágio descrito por Marx em “Fragmentos sobre as máquinas”, dos Grundisse (1857-58), que ia além, mas mantinha e destacava o Marx dos Manuscritos de 1844: o de uma fase da humanidade capaz de abolir o trabalho como maldição bíblica (segundo a interpretação agostiniana e puritana de uma consequência da saída do Paraíso) para passar à atividade coletiva como liberação do homo oeconomicus, governado apenas pelas duas libidos sentiendi e dominandi em detrimento da libido sciendi ou ludendi, bem menos funestas. 
Sou otimista, porque a conjunção de um estágio de desenvolvimento econômico com a ferramenta digital, a globalização cultural e, last but not least , o surgimento de uma necessidade e de uma urgência de trabalhar para a salvação da tribo humana, ligada à salvação da terra em geral, que pode unir “aqueles que acreditavam no céu e os que não acreditavam”, não nos coloca na situação muito mais difícil do Renascimento colonial, em que se mantinha “sua face sombria”, como ilustrou Walter Mignolo , ou então naquela dos “tenants” irlandeses que lutavam contra os landlords que os expulsavam das terras e os Parliamentary enclosures . Lembremo-nos do esforço dos jesuítas, quando criaram as Reduções, para salvar os ameríndios da escravidão, da servidão ao trabalho rural e, depois, industrial a que os colonos ávidos do Eldorado os destinavam. Esse esforço foi limitado pelo fato de que a economia mutualista, comunitária (a qual o movimento operário também voltou, diante da grande indústria manchesteriana), era muito menos eficaz e produtiva do que o acúmulo capitalista muito primitivo. Mas, desta vez, na era do Spätkapitalismus , o desenvolvimento, a produtividade e, além disso, a salvação comum do planeta estão do lado da desenclausuração, do modo e do código de produção peer to peer, seja mercantil ou não. 

IHU On-Line - Até que ponto é possível haver um “outro dinheiro”? Qual deveria ser seu real papel em nossas sociedades?
Yann Moulier Boutang - A preocupação dos homens ávidos por uma sociedade de justiça e esperança, portanto, utópica, no sentido definido por Arrigo Colombo , em seus belíssimos livros, de que ela ainda está por ser construída, sempre foi controlar o poder considerável do dinheiro. O dinheiro manda fazer. É a própria definição do poder sobre outrem; neste sentido, ele corrompe tudo, inclusive a si mesmo. A hostilidade das igrejas cristãs, muçulmanas e budistas à taxa de juros, ao desbridamento de sua área de extensão, não se deve a um capricho infantil. Mas o dinheiro também libera da dívida, do presente sufocante, quando toma a forma do crédito. Ora, esse crédito é a essência da moeda, que possibilita que uma sociedade se apoie numa antecipação do futuro de uma construção mais sólida. É um poder tão potente que, assim como a fé partilhada por uma comunidade pode mover montanhas, ele logo conheceu a apropriação por pessoas privadas ou pelos Estados, que regulamentam o direito de conceder crédito, o índice de juros praticado (definindo o que é usurário), as obrigações das partes contratantes. 
O monopólio da emissão de crédito ou do instrumento técnico de pagamento que vai traduzi-lo (a moeda metálica e, depois, fiduciária), do qual o comércio é apenas um aspecto, concentra um imenso poder. De maneira lógica, os homens, principalmente aqueles que tinham por que se queixar da distribuição das riquezas, procuraram libertar-se da coerção do poder por excelência, aquela que obriga os homens a fazerem um trabalho que gostariam de evitar, sobretudo, em detrimento de atividades que não rendem dinheiro. 
A organização das moedas alternativas contesta esse poder global do dinheiro, quebrando muitas vezes, de forma muito modesta, o monopólio de emissão de moeda e crédito. As diversas tentativas de moedas locais enfrentaram, em geral, uma repressão feroz das autoridades, que viam nessas tentativas um risco de contestação do Estado e da organização da sociedade e da produção determinadas sobre as quais ele se alicerçava. Mais uma vez aqui, o desenvolvimento do caráter de interdependência global da produção das condições de existência pelas sociedades, a possibilidade, graças à ferramenta digital, de organizar uma contabilidade das atividades humanas complexas, a ferramenta das comunicações em tempo real pelos telefones móveis conectados à internet mudam consideravelmente o alcance das moedas locais. 
Quando o Banco Central do governo equatoriano (apesar de muito vigiado pelo FED  americano, uma vez que a moeda deste país é dolarizada) implementou um sistema de pagamento por telefone móvel entre os pequenos agentes econômicos, essencialmente na zona rural, sem que estes tivessem de passar pelos bancos (o governo precisou resolver problemas técnicos de segurança informática, apoiar-se numa rede de vendedores ambulantes nas cidades), ele mostrou que os bancos não são uma instituição eterna e que poderiam ter um papel consideravelmente reduzido. Em outro registro, o surgimento e o sucesso fulgurante do crowdfunding  e do crowdlending  — estes, em economias desenvolvidas — mostram que uma economia mais eficiente, menos devoradora de recursos, menos produtora de renda é possível. Em suma, que moedas locais articuladas com a economia pilotada em seu conjunto, inclusive nos agregados da liquidez ou da quase liquidez do crédito, não conduzem absolutamente ao rompimento do laço social.

IHU On-Line - Em que sentido é possível falarmos em outra economia num contexto marcado pela hegemonia do dinheiro e do mercado financeirizado?
Yann Moulier Boutang - Se a financeirização da economia expressa o fato de que a finança de mercado atual é o governo “par défaut” do crescimento cada vez mais efetivo e esmagador das externalidades tanto positivas como negativas, isso não quer dizer que outra economia além da mercantil e traduzida em moeda sonante não seja possível. Isso quer dizer, ao contrário, que enquanto a esfera não financeira da economia e a economia política não levarem em conta essas externalidades, na medida de seu crescimento na riqueza real e no potencial de valor, a finança será cada vez mais solicitada e terá muito com o que se ocupar. 
Quando formos capazes de criar outro programa de pilotagem dessa economia global, a programação “par defaut” se imporá, com seu cortejo de defeitos evidentes. A finança, com seus vícios — que são consideráveis —, tem hoje, infelizmente, a virtude (e é a única, considerando-se a pusilanimidade dos Estados) de criar liquidez para financiar o futuro (principalmente, na área da transição energética, que é uma urgência estratégica). Somente ela tem o poder de gerar 32 bilhões de dólares de crédito disponibilizados imediatamente a partir de um pequeno bilhão de fundos próprios. Cabe aos Estados e, sobretudo, às grandes comunidades internacionais (Impérios, Organização das Nações Unidas - ONU, Fundo Monetário Internacional - FMI) agir mais, e o poder da finança (que não é somente um estado de fato, mas também, nas cabeças dos políticos, insuperável) voltará a proporções mais razoáveis e menos perigosas.

IHU On-Line - Qual é o cenário que se vislumbra para os próximos anos nas economias emergentes, como a do Brasil e de outros países da América Latina?
Yann Moulier Boutang - Não sou especialista em economia da América Latina em geral, tampouco do Brasil em particular. Então, tome a minha resposta com cuidado. Os BRICS , com exceção da Rússia, emperrada ainda numa descolonização que levará trinta anos para se completar, deparam-se todos com a questão do futuro da China, que é determinante para eles, tanto no sudeste asiático e na África, como na América Latina. Esses países compartilham com a China alguns dos problemas estruturais que condicionam a consolidação de sua saída do subdesenvolvimento ou, melhor dizendo, do mau desenvolvimento, sem disporem das vantagens estratégicas que a China adquiriu em trinta anos. Brasil, Índia, China e África do Sul (acrescentemos a Nigéria, o México, a Indonésia) devem simultaneamente ampliar a base de suas classes médias, portanto, ampliar a renda destas, seja aumentando os salários, seja redistribuindo pela criação de um Estado de bem-estar social efetivo, e não no papel, para terem um nível de consumo interno que torne seu PIB menos dependente das exportações de produtos de baixo ou médio custo, de recursos energéticos poluentes e, ao mesmo tempo, para continuarem a obter excedentes de sua balança de pagamentos e de sua balança comercial, investirem em equipamentos de futuro em indústrias e serviços de alta tecnologia, se não quiserem permanecer enredados na armadilha de uma perda de competitividade de suas exportações devido à má qualidade ou baixa integração de conhecimento, à concorrência de países onde os salários são ainda mais baixos, à corrupção que encarece o preço e não estimula os assalariados nem o setor público de infraestrutura a fazerem um esforço de produtividade. Uma das soluções para esses dilemas seria a ampliação maciça da base e da solidez das classes médias, erradicando de maneira muito mais voluntarista os fatores de desigualdades, portanto, estendendo o equivalente de uma renda de cidadania ou de educação (no modelo do Bolsa Família, que teve, no Brasil, um efeito notável sobre o índice de Gini  em um período muito curto), dotando suas economias de um sólido Welfare state  (especialmente, nas áreas da educação superior, da saúde, dos equipamentos urbanos) e focando no desenvolvimento das classes criativas precárias (não a camada superior delas). Mas essa estratégia passaria por um aumento das despesas públicas que não aprofundaria necessariamente, de maneira insuportável, o endividamento se medidas drásticas de economia fossem tomadas em relação às despesas suntuosas com mínimos efeitos de mudança duradoura (como, por exemplo, os esportes e outros eventos dignos da Roma antiga com seu “pão e seus jogos”), acompanhadas também por despesas com aparato militar. Também seria preciso levar a sério a transição ecológica, apostar na construção de uma indústria verde, em vez de obstinar-se em projetos que desembocarão num prazo de dez anos em ruínas siderúrgicas ou mineiras com consequências catastróficas para o meio ambiente, em particular, no caso brasileiro, para a Amazônia e também para o Mato Grosso do Sul. 
O desenvolvimentismo agrícola ou industrial pesado, que, na era digital, parece de outra era, sempre custou muito caro para o Brasil, que não soube capitalizar fases de desenvolvimento rápido, o ciclo madeireiro do pau-brasil no século XVI, o ciclo abortado do trigo paulista no século XVII, o ciclo das pedras preciosas no século XVIII, o ciclo abortado do algodão no início século XIX, o ciclo da cana de açúcar do século XVIII ao XX, o ciclo do café, o ciclo abortado da borracha do fim do século XIX à década de 1930. Os ciclos da soja transgênica, da carne de búfalo, da floresta amazônica, do petróleo do pré-sal não são uma garantia do desenvolvimento. Não criam nenhum efeito mágico. As verdadeiras questões do bem viver da maioria da população, da inclusão dos pobres, amontoados nas cidades, em condições precárias de transporte, moradia, higiene e segurança são cruciais. Em outras palavras, a questão da redução das desigualdades, as quais ainda atingem os níveis característicos dos países em desenvolvimento, como programa econômico, junta-se à questão de um desenvolvimento menos dependente das exportações, ecologicamente mais sustentável e mais apto a tornar o Brasil, e os BRICS em geral, mais armado na concorrência internacional, na economia do conhecimento. 
A China e a Rússia, diferentemente do Brasil, enfrentam dificuldades muito semelhantes. Se esses dois países não têm as desvantagens de uma real democracia, que traz incerteza para os investidores e para a possibilidade de conduzir políticas de longo prazo, eles também não têm as vantagens dela, o que constitui uma séria deficiência na corrida ao capitalismo cognitivo que se inicia no mundo. A cultura digital (que nada tem a ver com uma experiência e competências em eletrônica e em informática) está estreitamente ligada à democracia. Desse ponto de vista, o Brasil pode inspirar-se mais proveitosamente em Bangalore, na Índia, do que em Shenzen, na China. 

IHU On-Line - Dentro da lógica neoliberal e da financeirização, como podemos compreender acordos comerciais do tipo feito entre os governos do Brasil e China há pouco tempo?
Yann Moulier Boutang - Faz muito tempo que a China desenvolve uma estratégia, em relação ao antigo bloco, hoje bem desconjuntado, do Terceiro Mundo, tanto na África quanto na América Latina, de abastecer-se nesses países em produtos semimanufaturados, principalmente agrícolas, em energia e em recursos minerais, em troca do fornecimento de contratos turn key  de bens de equipamento, a exemplo do que fazia a Alemanha oriental comunista. Em outras palavras, a América Latina corre o risco de trocar sua antiga dependência do gigante americano por uma nova dependência da China. O fenômeno é ainda mais gritante na África subsaariana. Se tais projetos de equipamento em infraestrutura acompanham uma política de desenvolvimento endógeno de aumentar a qualidade da população sul-americana, por que não? No entanto, há de se temer que, limitando-se a construir autoestradas, pontes, ferrovias transamazônicas, depois de ter construído estádios para diversas copas de futebol, a América Latina inteira tenha crescimento sem desenvolvimento social e com uma fatura ecológica cara, como se tivesse o recheio, mas não o peru para rechear. 
Se a China consegue incluir o Brasil em acordos comerciais importantes, isso acontece por duas razões: a) ela assume o lugar deixado vago tanto pelos Estados Unidos quanto pela Europa, que não garantiram aos argentinos nem aos brasileiros uma colocação segura na alimentação de seu gado para uma soja não transgênica; b) a China acumulou uma força financeira colossal (3,7 trilhões de dólares de reservas em divisas estrangeiras em 2015), o que lhe permite emprestar sob forma de crédito-arrendamento (créditos ligados a importações de produtos chineses industriais) aos outros BRICS. Ela conseguiu criar recentemente seu próprio FMI, sob a forma do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, dotando-o de 500 bilhões de dólares e convidando os outros membros participantes a aportarem mais 500 bilhões. Esse programa deseja criar uma rota da seda do Sul, paralela àquela do Norte, que se concretizará com um trem-bala (ou TGV) de 11.000 km entre Pequim e Moscou. 
A China carrega a Índia, levada a substituí-la como “fábrica do mundo”. Ela venderá, nesse tipo de imperialismo soft, sua tecnologia de construção, sua mão de obra qualificada, seus bens de equipamento, entre os quais o trem-bala, o que lhe permitirá ultrapassar o delicado patamar em que agora se encontra: dotar-se de um welfare state, acolher 400 milhões de camponeses em 200 cidades de 2 milhões de habitantes, responder aos desafios ecológicos gigantescos que o país enfrenta (seca, erosão do solo cultivável, poluição química), requalificar sua indústria para o alto padrão, investir nas indústrias de ponta para poder continuar aumentando os salários, mantendo ao mesmo tempo um excedente de sua balança comercial, mesmo que este seja reduzido. O acordo sino-brasileiro insere-se perfeitamente nesse contexto de uma estratégia chinesa, de cujas deficiências não trataremos aqui. Em compensação, podemos nos perguntar se o Brasil tem uma estratégia tão coerente e, sobretudo, compatível com seu parceiro chinês. Por certo, trata-se de um acordo apresentado como win/win (os dois lados ganham). Porém, duas questões surgem: a) os ganhos para a China são incomparáveis com os ganhos brasileiros; b) se acrescentarmos os custos sociais, ambientais e de coerência industrial no desenvolvimento, não se tem certeza de que os ganhos comerciais sejam realmente ganhos. No entanto, mais uma vez, a China procura seu lugar de grande potência nas relações mundiais e o encontra, em grande parte, por causa do vazio europeu e americano.■
Leia mais...
A bioprodução. “O capitalismo cognitivo produz conhecimentos por meio de conhecimento e vida por meio de vida”. Entrevista com Yann Moulier Boutang publicada na revista IHU On-Line nº 216, de 23-04-2007;
“O sistema financeiro de mercado é como o sismógrafo desta crise”. Entrevista com Yann Moulier Boutang publicada na revista IHU On-Line nº 301, de 20-07-2009.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

DEZ FATOS SOBRE GRÉCIA - 16/7/2015 Por Bruno Cava Rodrigues

Por Bruno Cava Rodrigues
1) O "acordo", outro nome para a imposição pela troika, com Merkel, Schäuble e Juncker à frente, foi aprovado ontem no parlamento grego por 229 sim x 64 não x 6 abstenções. A maioria absoluta do Syriza votou com o premiê Alexis Tsipras, dos 149 deputados do partido: 111 sim x 32 não x 6 abstenções.
2) A Grécia é o país mais atingido da União Europeia pela crise, com já 5 anos de agudo empobrecimento, altas taxas de desocupação, desencanto com a política e cortes sociais.
3) Segundo pesquisas de opinião deste mês, Tsipras goza de uma popularidade de mais de 60% e a maioria da população confia nele para enfrentar a crise.
4) O Syriza emergiu da mobilização social contra a austeridade, mas também da aposta na via eleitoral. É o primeiro vetor institucional surgido da Praça Syntagma e do ciclo global de lutas contra a crise do capitalismo que venceu uma eleição majoritária. Em janeiro de 2015, conquistou 35% dos votos válidos e, em consequência, elegeu o primeiro-ministro.
5) O Syriza é uma coalizão heterogênea, com várias correntes políticas, redes de solidariedade, coletivos e movimentos sociais. O nome do partido é uma sigla que começa com "coligação". Mas não inclui a velha esquerda eurocomunista, representada pelo "partidão grego", o KKE, nem a velha centro-esquerda do Pasok, que por décadas integrou o sistema bipartidário da casta política corrupta, que se repete noutros países europeus (como na Espanha, entre PSOE e PP).
6) O dissenso à esquerda contra o Syriza, hoje, vem basicamente de três grupos:
a) esquerdistas ligados ao KKE e às velhas estruturas residuais do eurocomunismo, com 5% de representação parlamentar;
b) grupos esquerdistas, autonomistas e anarquistas que rejeitam qualquer via partidária ou eleitoral;
c) grupos internos ao Syriza, especialmente a corrente "Plataforma de esquerda".
7) Os grupos a) e b) já apontavam a traição do Syriza e Tsipras desde o princípio, seja por considerá-los a "nova direita", seja porque qualquer opção pela via eleitoral significa trair o movimento das lutas.
8) O grupo c) tensiona por dentro do Syriza, contra Tsipras, em virtude do resultado das negociações em Bruxelas na semana passada, no momento em que, depois do "oxi" do referendo de 5 de julho, o primeiro-ministro aceitou o ultimato dado pela troika sob pena da insolvência.
9) As avaliações sobre a questão se distribuem, basicamente, nos seguintes argumentos:
a) Tsipras deveria ter aproveitado o "não" no referendo para romper de vez com a troika, ao que seus partidários respondem que a negativa não implicava sair da União Europeia e do euro, como aliás o governo discursou durante a campanha pelo "não";
b) Tsipras capitulou diante das exigências traindo a alma do Syriza, que deveria ser um partido anti-austeridade sem concessões, ao que se responde que nem todo recuo é traição e que, na hora H, o premiê foi surpreendido com a determinação da Alemanha em jogar a Grécia para fora da janela da UE, o Plano Schäuble original, na verdade, era o Grexit, ademais, o discurso da "traição" e "capitulação" tem um fundo moral que geralmente é utilizado para reafirmar o próprio radicalismo de pelotões ideológicos do "nem-um-passo-atrás";
c) Se Tsipras não estava preparado para ir até o fim nas negociações, não deveria ter convocado o referendo, gerando uma confusão comprometedora e uma contradição automática, ao que se responde que o referendo foi antes um voto de confiança ao premiê e ao Syriza para enfrentar a crise, além da tentativa de remobilizar a sociedade grega num momento decisivo, e não apenas para dar "poder de barganha", além de alastrar as redes de solidariedade pró-Grécia para além do território nacional;
d) Tsipras deveria partir para Planos B, C e D, sem ficar dependente do euro e da troika, ao que se responde que, com apenas seis meses no governo, não foi possível construir alternativas viáveis, que a transição abrupta com a volta do dracma acabaria levando a uma situação catastrófica (falta de dinheiro nos caixas, desabastecimento, não-pagamento de pensões e auxílios), além disso, com o tempo ganho, os Planos B, C e D podem ser reforçados daqui em diante, em paralelo à injeção de liquidez pelo BCE, e que não basta estatizar bancos e criar "planos quinquenais", se a moeda não tiver um fundamento real de confiança e produtividade sociais;
e) Tsipras aceitou um acordo pior do que antes do referendo, um erro estratégico, ao que se responde que, além do pacote de afluxo financeiro ser bem mais robusto, pôde expor exaustivamente os mecanismos de violência da troika, especialmente do governo da Alemanha, além de rachar aquela, uma vez que o FMI está tensionando internamente a Comissão Europeia por um "acordo" melhor;
f) Finalmente, Tsipras deveria estar preparado para sair da UE e do euro, por razões geopolíticas anti-imperialistas, numa linha eurocética, pois se chegou a um ponto de não retorno, ao que se responde que na entrevista de segunda o próprio premiê disse ter consultado China, Rússia e EUA, que nenhum deles deu nenhuma garantia substantiva, que o espaço político europeu não só é disputável como está sendo (destaque para Espanha, Irlanda, Itália e Portugal), que o Grexit não pode ser objeto de uma discussão romântica, e que uma vez que a Grécia saia da UE, a crise no país deixa de ser um "problema europeu" para se converter numa questão de ajuda humanitária e desenvolvimentista.
10) Existe um grande limiar de incerteza em que se inserem tanto os apoiadores de Tsipras quanto os dissidentes, dentro do próprio Syriza. Tanto os apoiadores afirmam frequentemente que não estão certos do que fazem, quanto os dissidentes internos tomam o cuidado de evitar o discurso da traição ou de destituição do atual premiê. O reconhecimento desse limiar é positivo porque mostra como existe uma margem de manobra construtiva para ambos os grupos, por dentro do Syriza, para avançar no enfrentamento contra as instituições da troika e a classe dominante europeia e grega. O Syriza está passando por um teste que, embora seja num pequeno país mediterrâneo, significa muito para quem se sente implicado neste ciclo de lutas. É um momento riquíssimo e interessantíssimo, em que todos em certa medida também estamos sendo interpelados.
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segunda-feira, 15 de junho de 2015

HISTÓRIA; A gênese do império da lei - Sylvia Colombo -- ‪#‎CartaMagna‬ ‪#‎Commonwealth‬

HISTÓRIA
A gênese do império da lei
Em 1215, a Inglaterra impunha limites ao monarca
SYLVIA COLOMBO
RESUMO Desavenças entre o rei John da Inglaterra e os então "homens livres", que viam seus direitos econômicos ameaçados pelos abusos do monarca, levaram à criação da Magna Carta. O documento, que impôs limites ao monarca, completa 800 anos e é objeto de comemorações e lançamentos no Reino Unido.
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Na primavera de 1940, enquanto a Alemanha bombardeava Londres e outras grandes cidades britânicas, milhões de norte-americanos enfrentaram filas, em Nova York e em Washington, para ver de perto um dos quatro exemplares sobreviventes da Magna Carta britânica, documento escrito em 1215, em latim medieval, restrito a uma única folha com 54 linhas de texto em letras pequenas, protegido por um vidro grosso.
No ano seguinte, após o ataque a Pearl Harbor, os EUA decidiram entrar na Segunda Guerra, ao lado do Reino Unido e contra os nazistas. Antes de iniciar os ataques, a pedido dos britânicos, os norte-americanos embalaram cuidadosamente a Magna Carta e a levaram, com a Declaração de Independência e a Constituição dos EUA, à base militar de Fort Knox, no Estado de Kentucky, onde ficariam mais bem protegidas. De lá, o documento só voltaria ao Reino Unido após a derrota nazista e o fim do conflito.
"A Carta deixa de ser uma peça de museu e se transforma em um documento vivo, ainda muito influente, a partir do momento em que a consideramos como símbolo de uma liberdade ameaçada e de um conjunto de valores que acreditamos que deve ser mantido", diz à Folha, por telefone, o magistrado britânico Igor Judge.
"O gesto de britânicos e de norte-americanos de defenderem esses papéis durante a Segunda Guerra, diante da ameaça do totalitarismo nazista, mostra que nossa liberdade não pode ser considerada como algo gratuito e eterno se não tivermos claro no que ela está baseada", frisa Judge, que foi chefe do Judiciário da Inglaterra e do País de Gales entre 2008 e 2013.
Nesta segunda (15), a rainha Elizabeth 2ª encabeçará a comemoração do aniversário de 800 anos da Magna Carta, em Runnymede, um prado à beira do Tâmisa, nos arredores de Londres, onde o texto foi selado por seu distante antecessor no trono, o rei John (1166-1216).
Mais novo entre os cinco filhos de Henrique 2º, John entrou para a história com a fama de ter sido o pior e mais tirânico monarca da Inglaterra. São abundantes os relatos de prisões arbitrárias, confisco de propriedades, abusos sexuais e assassinatos. Foi, além disso, um fracasso militar, que perdeu importantes territórios (Anjou, Aquitânia e Normandia) e não conseguiu evitar que o país mergulhasse numa guerra civil.
Preocupados com o clima de instabilidade e, principalmente, com os impostos altos e desregrados que John lhes impunha para financiar guerras e seu estilo de vida luxuoso, os barões do reino, nobres proprietários de terra, resolveram enfrentá-lo.
Acuado, o soberano aceitou comprometer-se com uma "carta de liberdades" --recurso que já existia na Europa para estabelecer os deveres e direitos de reis e proprietários de terra, principalmente quanto à cobrança de tributos e às regras de herança de patrimônio.
TERRA "O que diferencia a Magna Carta das que vieram antes é o fato de ela colocar a lei acima de tudo. Até então, os reis deviam prestar contas apenas no céu, depois que morressem, e o que haviam prometido aos súditos não era honrado por ninguém. Após a Magna Carta, estabeleceu-se a ideia de que o rei presta contas na terra e, se não se comporta de acordo com seu juramento, pode perder o cargo", explica Judge.
A cláusula 61 da Magna Carta, a principal novidade em relação aos documentos anteriores, estabelecia que, se o rei agisse de forma arbitrária e desrespeitasse o texto, um conselho de 25 barões o notificaria e estaria autorizado a rebelar-se contra o monarca, podendo até mesmo assumir o controle do reino temporariamente.
A Carta também previa que os "homens livres" não poderiam ser presos sem um "julgamento justo", e a Justiça não poderia tardar a ser aplicada. Estipulava, ainda, que as penas deveriam ser correspondentes à gravidade dos crimes.
É importante ressaltar que eram considerados "homens livres" apenas aqueles que recebiam terras do rei para cultivá-las, devendo pagar impostos, prestar serviços e auxiliar nas guerras. Correspondiam a menos de 20% da população. O restante, em sua maioria, era composto por camponeses vinculados às terras em que trabalhavam.
"É preciso reforçar que a Magna Carta tratava dos interesses daqueles que possuíam terras. Sobre esses camponeses, o documento não diz nada. Sim, eles tinham acesso à Justiça, mas apenas à Justiça local, proporcionada por seus senhores", ressalta o medievalista Stephen Church, da universidade de East Anglia.
Inicialmente, a Carta não teve efeito e nem sequer foi útil para manter a paz. O rei John imediatamente buscou apoio do papa Inocêncio 3º, que a declarou nula por ser "ilegal, injusta, prejudicial aos direitos reais e vergonhosa para os ingleses". Os barões, então, incitaram o príncipe Luís, filho do rei da França, a invadir a Inglaterra --e a guerra se instalou.
Porém algo de substancial havia mudado para sempre na relação de um monarca com seus súditos.
Em 18 de outubro de 1216, John morreu de disenteria. Henrique 3º, seu filho, que assumira aos 9 anos de idade, sem outras opções para garantir a paz, revisou e reeditou a Magna Carta durante seu reinado.
O documento recebeu alterações em 1216 e 1217, ainda durante a minoridade do novo monarca. Mas foi a versão lançada em 1225 aquela que se tornaria, por fim, célebre internacionalmente. Henrique 3º deixou claro que o texto fora, daquela vez, concebido e firmado sem coerções e que era entregue após o pagamento consensual de imposto por parte de todos os "homens livres" de então.
"Foi no século 17 que a Carta ganhou grande relevância. O Parlamento fez uso dela para conter o rei e venceu. Se o rei tivesse vencido, a história desse documento medieval poderia ser outra. Com a vitória do Parlamento, a Magna Carta passou a ser vista como uma pedra fundacional do mito da continuidade da liberdade inglesa", explica o historiador Modesto Florenzano, da Universidade de São Paulo.
O documento, de fato, foi amplamente citado na tentativa de deter as ambições do rei Carlos 1º (1600-49), que desejava ampliar os poderes monárquicos com base no conceito de "direito divino". Parlamentares e magistrados, como o juiz Edward Coke (1552-1634), usaram a Carta para tentar subjugar o rei à lei. A Inglaterra logo entraria numa guerra civil, que terminaria com a execução de Carlos 1º, em 1649.
EXAGEROS Desde então, a Magna Carta serviu de inspiração e referência em diferentes processos de mudança política e contenção da tirania, como a Revolução Francesa (1789) e a Independência norte-americana (1775-83). Ela passaria a representar uma espécie de constituição ancestral e fundamento original da ideia de igualdade de todos perante a lei, da garantia das liberdades civis, do atual sistema judiciário britânico e até mesmo da própria democracia. Aqui, é prudente evitar alguns exageros.
Historiadores britânicos fazem ressalvas quanto ao que chamam de "totemização" do documento e às interpretações que consideram anacrônicas. "A Magna Carta não inaugurou a democracia. Não criou o julgamento feito por um júri, nem a presunção de inocência, nem o habeas corpus [garantia individual para quem sofrer ou estiver ameaçado de sofrer restrição à sua liberdade de locomoção], nem as liberdades individuais, nem muitas outras coisas que são associadas a ela por pessoas que jamais leram de fato o documento", diz Nicholas Vincent, autor de "Magna Carta - Origins and Legacy" [The Bodleian Library, 160 págs., 20 libras na Amazon.co.uk].
"Ainda assim", frisa Vincent, "ela realmente merece ser celebrada, por ter estabelecido, pela primeira vez, o princípio de que ninguém está acima da lei, nem mesmo o rei. Estabelece que todos os acusados de terem agido mal devem ser julgados de maneira apropriada de acordo com a lei, a ideia de que a Justiça deve atuar de forma livre e, ainda, que a gravidade da punição deve refletir a gravidade do crime".
Vincent lembra que a revolta dos barões teve motivações essencialmente financeiras. "O dinheiro foi o principal motor. Era um momento de inflação severa, durante o qual os barões vinham enriquecendo e tornando-se mais autoconfiantes, os pobres continuavam sendo oprimidos, e o rei vinha declinando como autoridade econômica. As cláusulas financeiras da Carta são dedicadas a beneficiar a pequena elite econômica do país. Havia uma preocupação enorme quanto a regulamentar as heranças, pois era muito comum que o rei expropriasse terras e propriedades de um nobre, depois que este morria. Os camponeses, mais de 80% da população, não têm absolutamente nenhuma menção na Carta."
Judge explica como um documento voltado a proteger interesses financeiros de uma elite veio a se transformar num símbolo da liberdade. "A Carta menciona a ideia de 'direitos', ainda que se referindo apenas a um pequeno grupo. Havia poucos 'direitos' então. Porém, a Carta criou uma estrutura, naquele momento longínquo de nossa história, à qual, conforme esses direitos fossem surgindo, podiam ser incorporados."
Para o magistrado, a novidade foi ter começado a estabelecer, aos poucos, o raciocínio: "Se pago impostos, posso fazer parte das decisões". "Isso evoluiu com a história. Aos poucos, mais e mais aspectos foram parecendo incongruentes: 'Se pago imposto, por que não voto?', 'por que existe servidão?', 'por que uma mulher não tem os mesmos direitos que um homem?', 'um imigrante tem direitos?' E assim por diante."
"Foram preocupações surgidas depois, em seus determinados contextos, mas que encontraram na Carta uma base que permitia essas reflexões. Essa é a diferença crucial da Magna Carta com relação a juramentos ou Cartas que existiram antes", conclui Judge.
viúva Interpretações contemporâneas, de fato, veem na carta prelúdios do feminismo. Uma de suas cláusulas diz: "Uma mulher deve receber sua herança, após a morte do marido, sem dificuldades". Isso porque era comum, na época, que o rei confiscasse os bens do morto e entregasse apenas uma parcela à viúva. Mas a Carta avança um pouco mais: "Nenhuma viúva deve ser forçada a casar se ela preferir viver sem um marido".
De todas as 63 cláusulas do documento, apenas três estão ainda em uso tal qual foram formuladas. Uma é a que garante liberdades e direitos da Igreja da Inglaterra. A outra confirma as liberdades da cidade de Londres, mas a mais famosa é a número 39:
"Nenhum homem livre será perseguido ou aprisionado, ou será privado de seus direitos e posses, ou posto fora da lei ou exilado, nem usaremos de força contra ele, sem o devido julgamento de seus iguais ou pela lei da terra."
Para Judge, "não é correto dizer que esse artigo introduziu a noção de habeas corpus ou de julgamento por um júri, ideia que se popularizou no século 17, mas é vital para entender a transformação da relação do rei com seus súditos".
"É preciso reforçar que o essencial da Magna Carta é a ideia de que a lei está acima de tudo, e o direito de qualquer cidadão sem poder de criticar ou mesmo mover uma ação de 'impeachment' contra seus líderes políticos ainda é de grande importância, e viajou para a América, de norte a sul", frisa Vincent. "Usada como totem ou ícone, a Magna Carta ainda é relacionada à ideia de liberdade e de direito à Justiça, mesmo que a linha que conecta essa interpretação aos fatos de 1215 seja tênue."
estudos O oitavo centenário da Magna Carta está sendo marcado, entre outras comemorações, pelo lançamento de alguns estudos que projetam nova luz sobre os acontecimentos de 1215.
Um deles é "King John and the Road to Magna Carta" [Basic Books, R$ 63,54, em e-book na Amazon.com.br], do historiador Stephen Church. Em conversa com a Folha, ele diz que o rei John, imortalizado por Shakespeare numa peça de mesmo nome, foi demonizado pela historiografia.
"Não digo que não tenha sido um tirano, mas o que se escreveu sobre ele esteve marcado pelo sentimento da época. Tento entendê-lo em seu contexto, que é o de um mundo bastante selvagem, em que as relações eram atravessadas pela violência e a autoridade se exercia com brutalidade."
O recente sucesso da série televisiva "Game of Thrones" faz pensar num paralelo entre o rei John e o abusivo rei Joffrey, da atração de aura medieval baseada nos livros de George R. R. Martin. "Meu filho sempre me diz que eu deveria ter escrito 'Game of Thrones', em vez de um livro chato de história sobre o rei John", comenta Church.
"Em ambos os casos, eles cometeram excessos e provocaram rebeliões", diz. O paralelo, porém, se encerra aqui. "Reis na Idade Média não eram como os de 'Game of Thrones' porque a série é uma paródia da Idade Média, desenhada para entreter uma audiência moderna que tem algumas ideias de como a Idade Média pode ter sido."
Ainda para celebrar a data, a artista britânica Cornelia Parker recrutou um time composto de nomes famosos e presidiários para bordar uma versão do verbete "Magna Carta", da Wikipedia, numa peça de 13 metros de comprimento, encomendada pela British Library para as comemorações.
Além de convocar especialistas dessa arte manual, como membros da Embroiderer's Guild, Parker convidou Julian Assange, dos WikiLeaks, Edward Snowden, ex-agente que revelou instrumentos de espionagem do governo norte-americano, e o cantor Jarvis Cocker para bordarem palavras. O ex-editor-chefe do jornal "The Guardian", Alan Rusbridger, literalmente deu um pouco de seu sangue ao trabalho: ao bordar um tópico, furou o dedo, e os respingos ficaram visíveis na obra final.
A British Library também montou uma exposição, em cartaz até setembro, de documentos e objetos de época que celebram a Magna Carta. Atualmente, sobrevivem quatro cópias do documento --não existe uma original; uma vez que eram produzidos exemplares suficientes para que a lei fosse distribuída pelo reino, estima-se que tenham sido confeccionadas, em 1215, cerca de 40 cópias. "Aqui na British Library temos duas. Uma foi danificada por um incêndio, em 1731, e a outra encontrada no século 18, numa alfaiataria", conta o curador Julian Harrison.
As comemorações se encerram em 31 de julho, quando um julgamento será encenado por magistrados de toda a Commonwealth, liderados por lorde Neuberger, presidente da Suprema Corte britânica. No evento, serão reunidos argumentos de acusação e defesa para decidir se os barões estavam agindo de acordo com a lei ao se rebelarem contra o rei John. O espetáculo, gratuito, durará duas horas e ocorrerá em Westminster.
"Será mais do que um show temático sobre o episódio. Os magistrados examinarão questões atemporais de importância legal e constitucional: o rei está acima das leis? Existe defesa para quebrar um pacto como o que os barões tinham com o rei?", diz Robert Worcester, chefe do comitê de organização dos festejos de 800 anos do documento.

Caso Zapata, Espanha: postagem Natacha Rena facebook

ZAPATA e o primeiro ato explicitamente perverso contra os ativistas no poder na Espanha! Um recado: seja ativista, mas politicamente correto e não fuja às regras neoliberais da transparência e do controle! Assim, retroativamente, com este caso exemplar, dão um recado aos movimentos multitudinários em todo o mundo: não se espelhem na Espanha e no 15M porque os comunistas ‪#‎NãoPassarão‬. Controle biopolítico requintado e de longo alcance.
"Guillermo Zapata no es racista, tampoco antisemita, ni negador del Holocausto, sino todo lo contrario. De hecho, siempre ha condenado las políticas xenófobas, como las de “caza al mendigo” y “encarcelamiento del inmigrante” por indocumentado, implementadas precisamente por aquellos que desde el PP lo acusan de lo que no es. Y no, obstante, a causa de una conversación por Twitter sobre los límites del humor, que tuvo lugar hace cuatro años, y en la que reproducía a manera ilustrativa ejemplos extremos de humor negro y cruel, ha sido linchado mediáticamente viéndose obligado a dimitir de su cargo de Concejal de Cultura del ayuntamiento que gobierna Ahora Madrid.
Cierto que a estos tweets denunciados se han sumado los sarcasmos que tiempo atrás empleaba para criticar la instrumentalización de las víctimas del terrorismo por parte del PP, y uno más a propósito de una de esas víctimas, Irene Villa, que manifiestamente ha apoyado las políticas de la derecha en esta materia.
Ahora bien, más allá de lo particular, de las descontextualizaciones y del mal gusto de los chistes, el caso ilustra un problema político de máxima envergadura y que tiene que ver con el disciplinamiento neoliberal en la Sociedad de la Transparencia.
Neoliberalismo, capital humano y agencias calificadas.
Cualquiera que sea su forma, austríaca o británica, de la Escuela de Chicago o de Friburgo, el neoliberalismo establece como imperativo tanto la flexibilidad como la plasticidad del sujeto. En tanto que empresario-de-sí medido como capital humano, inversor en sí mismo y en busca de constantes inversores, al sujeto se le exige:
1) una continua reinvención de sí mismo en vistas a maximizar su adaptabilidad a contextos cambiantes;
2) una diversificación dinámica de sí mismo mediante el diseño y la gestión de su portfolio, de su capital y carpeta de productos, en vistas a lograr una mayor tasa de “empleabilidad” y “banqueabilidad” (accesibilidad al crédito y capacidad de atracción de inversores).
Las redes sociales forman parte de las tecnologías de producción, gestión y diseño del portfolio, monitorizable por el propio usuario, para medir su desempeño, en términos de likes y tweets, visualizaciones de sus páginas y número de fans, followers y amistades, todo ello ranquinizado con índices de impacto y estadísticas que cualifican la información en bruto. La auto-estima o auto-apreciación es lo que está en juego. La cuestión es manejar tu stock como un capital bursátil, lograr que no pierda valor y a poder ser incrementarlo con las inversiones correctas. No se trata solo de Facebook o de Twitter, sino también de redes sociales sectoriales que funcionan de manera análoga: Tinder para la autogestión en red del capital erótico-amoroso, Academia.edu para el capital del investigador, LinkedIn para “gestionar tu identidad profesional”, etc.
Todo ello forma parte de las transformaciones de la gubernamentalidad neoliberal que han acompañado al auge del capitalismo financiero y la economía digital en las últimas décadas, inscritas por tanto en la financiarización y ranquinización de la vida cotidiana.
Del capitalismo financiero a la vida cotidiana.
Las redes sociales son ambivalentes. Han contribuido a dar luz y animar los procesos de revolución democrática, pero son también una vasta tecnología de control que mediante la transparencia extractiva y almacenable por el Big Data engorda la información disponible de cada cual, de su práctica cotidiana, a lo largo de su timeline.
Se almacenan las amistades y contactos, las operaciones comerciales, cada acto de consumo, la participación en eventos, las opiniones de todo tipo, lo hobbies, los gustos musicales, sexuales, políticos. La vida, cualquier vida, deviene transparente, objeto del marketing, continuamente auditable y evaluable según su desempeño actual y previsiones futuras.
Michel Feher habla de “rated agencies” para definir la condición neoliberal. El neoliberalismo impone una existencia donde cada cual está sujeto cada vez en más dominios a las agencias de evaluación y calificación, similares a las rating agencies del capitalismo financiero. Tinder es la Standard & Poor’s de las finanzas del amor y del sexo; Thompson & Reuters, el Moody’s del capital académico. Facebook y Twitter funcionan como extensiones de los departamentos de Recursos Humanos.
Disciplina y formalización.
El caso de Guillermo Zapata ilustra el ejercicio político de la disciplina en la sociedad de la transparencia. Serán premiados quienes tengan su historial limpio. Un higienismo extremadamente perverso pues, como demuestra el caso mencionado, impone una autocensura tenaz: no importa que uno sea anti-racista, la cuestión es no verter en la red nada que pueda ser descontextualizado.
Antes de internet, el miedo del político —o cualquier otra persona pública— consistía en utilizar las palabras exactas en una entrevista o ante las cámaras, de forma que los medios opositores no pudiesen descontextualizarlas. El efecto sobre el discurso fue notorio. Cada vez se convirtió más en un montón de frases hechas, una ridícula formalización o estandarización que, paradójicamente, intentando defenderse cada político de la descontextualización, contribuyó al descrédito de los políticos en su conjunto. Hablaban como lo hacía un jugador de fútbol, con un lenguaje extremadamente artificial, vacío y previsible.
El efecto de esta hiperformalización del discurso y su relación con la pérdida de legitimidad ha sido estudiada por Alexei Yurchak y Dominic Boyer para el caso del discurso poststalinista en países del “socialismo real”, quienes enfatizan además lo útil que resultaba el humor en esta situación como herramienta de combate. Su tesis es que la caída del “socialismo real” soviético y alemán tuvo bastante que ver con esta hiperformalización. En otro lugar he analizado esta cuestión en relación al 15M, donde el humor jugó un papel no menos decisivo.
Transparencia y disciplina.
A menudo han sido cuestionadas distintas formas de disciplinamiento implícitas en las políticas neoliberales: disciplina mediante la deuda privada, que hará que el trabajador tema perder su puesto y no poder pagar sus mensualidades; disciplina del desempleado, que aceptará someterse al control y a la formación continua para no quedar fuera de la carrera por la “empleabilidad”. Pero ésta va más allá para llegar hasta un auto-disciplinamiento moral relativo a la exposición exigida para cada cual en su cotidianidad vertida en las redes.
Dado que el timeline registrado se remonta al primer uso de internet, el político que no quiera arriesgarse a desvalorizar su capital debe censurarse desde el comienzo, incluso mucho antes de poder imaginar llegar a su cargo. Será premiado quien desde su más temprana juventud, en su continua reinvención de sí mismo y exposición minimice a lo largo de su vida la posibilidad de entrar en contradicción consigo mismo, quien minimice los cambios de opinión, quien no se preste a excentricidades, quien no emita opiniones arriesgadas. En verdad, lo dicho para el político o cualquier otra persona pública, será igualmente válido para el resto: el banquero tendrá el registro de la vida cotidiana del cliente que pida un préstamo; el empleador de quienes buscan empleo y quienes tiene ya a su cargo.
El ideal neoliberal de un sujeto emprendedor, creativo, que rompe con lo establecido, que se enfrenta a la convenciones y acepta el riesgo de crear lo nuevo aunque desconcierte e incomode, choca con el disciplinamiento moral y la autocensura asumida al responder a la exigencia de prestarse a una continua exposición, evaluación y calificación de sus actos, palabras e imagen. Lo que el caso comentado ilustra es precisamente esta aporía, así como la dimensión distópica de la utopía de la transparencia y del sujeto neoliberal."
‪#‎TecnopolíticasNeoliberais‬
Repuesta de Guillermo Zapata ante la polémica:http://guillezapata.tumblr.com/…/sobre-polemicas-y-contextos

sábado, 6 de junho de 2015

Dez pontos-chave da inovação de #Manuelamania

link uninomade

Por Bernardo Gutiérrez, no Yorokobu | Trad. UniNômade
Dez pontos sobre a campanha meteórica de Manuela Carmena, provável vencedora das eleições municipais no domingo na capital da Espanha, pelo Ahora Madrid, plataforma municipalista inspirada pelo Barcelona en comú e outras experiências organizativas inovadoras pós-15M.
A #ManuelaManía conquistou as redes sociais. Manuela Carmena, candidata da frente cidadã #AhoraMadrid às eleições municipais de Madri, passou de desconhecida a ícone pop. A onda de criatividade — pôsteres, ilustrações, vídeos, música — deram muito o que falar nas mídias. Mas a explosão deste manuelismo em rede tem muitas camadas, detalhes tecnológicos e estratégias inovadoras que vão mais além da criação artística.
Há duas décadas, trabalho com tecnologia, internet e redes. E confesso que não tinha visto uma campanha tão surpreendente em nenhuma eleição. O #YesWeCan que catapultou Barack Obama em 2008 foi um primeiro case de estudo de mobilização e política do tipo do it yourself (DIY), que incentiva a auto-organização dos militantes. A onda verde do candidato ecologista Antanas Mockus, que quase o levou à presidência da Colômbia em 2010, superou em efervescência o #YesWeCan.
Apesar disso, nenhum dos dois casos chega sequer perto do fenômeno explosivo de Manuela Carmena, impulsionado em parte pelas campanhas independentes da cidadania, como oMovimento de Libertação Gráfica de Madri ou Madri com Manuela. Neste artigo, analiso em dez pontos as inovações formais, tecnológicas, narrativas e estratégicas do ecossistema de campanhas de Ahora Madrid:
1. Isto não é um partido. O formato “confluência” passará à história como uma das primeiras formas pós-partido. Desde o surgimento de EnRed em Madri, até a consolidação de Ahora Madridtodo um processo.aconteceu. Do EnRed passamos ao Municipalia. Deste, na sequência do Guanyem Barcelona [atual Barcelona en Comù],  ao Gañemos. A negociação desta iniciativa cidadã com diferentes partidos tinha um ponto inegociável: o resultado final não poderia ser, simplesmente, um partido político. Tampouco uma simples frente ou coalizão política. O sistema de escolha dos candidatos deveria passar pelas primárias. O formato “confluência” de Ahora Madrid, uma fórmula que soma e multiplica sem descanso, agrega e não compete com aliados, é uma novidade no panorama político mundial.
2. Programa participativo. O programa de Ahora Madrid foi cultivado em rede de maneira colaborativa, apelando à inteligência coletiva de que fala o filósofo francês Pierre Levy. Diretamente inspirado na ferramenta Propongo, que por sua vez inspirou ferramentas de wikigoverno na Islândia, a plataforma programa.ahoramadrid.org tem um formato “agregador”. Qualquer pessoa pode enviar propostas durante meses à dita plataforma. As propostas, que são votadas pelos usuários, se dividem entre Mais VotadasMais Consenso e Mais Debatidas. A plataforma está baseada em software livre e aproveitou o código fonte de Gañemos Zaragoza.
3. Autofinanciamento. Ahora Madrid renunciou a financiar-se com empréstimos bancários. Por isso, colocaram em marcha uma campanha de microcréditos e doações de particulares, funcionando com a hashtag #FinanciaMadrid na plataforma financia.ahoramadrid.org. A iniciativa abre um caminho quase inédito na Espanha entre as formações políticas.
4. Do boca à boca ao peer-to-peerA filosofia de Ahora Madrid, com uma carência estimada de 150.000 euros, 100 vez menos do que o financiamento dos outros partidos, tem em seu DNA formador a filosofia DIY, o tão falado “faça você mesmo”. Aliás, se aposta agora no mais contemporâneo “faça isso com os outros” (DIWO). Você é a campanha tem sido o lema/método. A filosofia do boca à boca mais clássico, que se encaixa totalmente com o denominado peer-to-peer, se disseminou por redes e territórios. De par a par, de boca à orelha, de bicicleta à bicicleta. A plataforma independente Madrid com Manuela, uma das responsáveis pelo transbordamento criativo e subjetivo, lançou várias iniciativas para convencer de maneira pessoal a amigos e familiares. A primeira foi: “1 = 10“, para que cada um traga para a causa dez amigos ou familiares. A segunda apela para que se contasse sobre a campanha aos outros, à mãe, pai, amigos… como uma estratégia.
5. Auto-organização. A auto-organização de diferentes coletivos, redes, movimentos cidadãos ou fluxos espontâneos foi a tônica da reta final da campanha. O surgimento do Movimento de Libertação Gráfica de Madri e da plataforma Madrid con Manuela, articulados de forma independente a partir da sociedade civil, trouxe outra chave: a campanha de Ahora Madrid é um ecossistema, uma malha em que a mensagem não está centralizada pelas contas das plataformas oficiais. Os “processos emergentes” de que falava Steve Johnson, ou os “arranjos humanos” formulados por Kevin Kelly, em seu clássico Out of control, floresceram na reta final da campanha de Ahora Madrid, de maneira surpreendente.
6. Candidata apropriável. Atreva-se a ser Manuela. Be Manuela, be a hero, #SomosManuela. As redes e as diferentes camadas das campanhas transformaram a candidata Manuela Carmena numa coisa apropriável por muitos. Tom Himpe, em La publicidad de vanguardia (bíblia do novo marketing), destacava o “seja possível” como uma das tendências do novo século. Por outro lado, a identidade coletiva das teorias e práticas da multidão e da era da rede estão muito presentes na #ManuelaMania. As campanhas oficiais de Ahora Madrid jogaram à perfeição com isso. A plataforma AhoraManuela.org, que usava o Ahora Tú, apostou em criar uma candidata apropriável.
No vídeo Alcaldes Vosotros, em que cidadãos se colocavam máscaras de Manuela Carmena, também era apontada a identidade coletiva. As máscaras e caretas de Manuela Carmena distribuídas pela plataforma Madrid con Manuela e a hashtag #SomosManuela (que foi tendência na Espanha durante oito horas e em vários países do mundo) também foi nessa direção. Especialmente disruptiva foi a comunidade de Facebook Dou minha cara a tapa por Manuela, que incentivava a troca de fotografias dos perfis pessoais por ilustrações ou fotos de Manuela Carmena.
7. Transmídia. Já correu muita água por debaixo da ponte desde que Henry Jenkins publicou o livro Convergencia Cultural. Em 2006, o storytelling transmedia (algo assim como uma narrativa multiplataformas) começava o seu trajeto do cinema aos videogames, televisão e blogues. Apesar disso, com a massificação das redes sociais, os smartphones e os territórios híbridos (internet e espaço físico), a transmídia ganhou novas dimensões. A #ManuelaMania usou técnicas sofisticadíssimas de transmídia e multicamadas (um termo bastante em voga).
A partir do Twitter, se incentivava a participar em grupos de Facebook; do Facebook, por sua vez, se buscava a transversalidade entre as plataformas; desde WhatsApp ou Telegram se tinham viralizado conteúdos em grupos, do Youtube se deu um salto à televisão, do Soundcloud(algumas canções compostas exclusivamente para a campanha) Manuela Carmena chegou às emissoras de rádio… Do Instagram se conecta a outro perfil de usuário, mais jovem e com outras plataformas. O perfil que alguém abriu em Tinder, de uma Manuela Carmena de 21 anos que envia um mensagem convidando a votar, é uma das iniciativas mais surpreendentes: “Não sou Manuela Carmena mas estou aqui para conhecer gente. Somente queria contar a você que no domingo podemos começar a mudar muitas coisas em Madri.”
A remistura, outra das característica da convergência cultural segundo Henry Jenkins, tem sido um dos métodos mais explorados: Chuck Norris cansado do debate em Telemadrid, “A liberdade guiando o povo” de Delacroix em versão castiça, as capas dos discos dos Sex Pistols com Manuela, cartazes de filmes famosos… Nem os personagens de Star Wars se livraram das remisturas manuelistas… Remistura e culture jamming em estado puro.
8. Territórios. O caminho ao MundoReal (TM), segundo um já mítico artigo de @Ciudadano_Zero, é árduo. Pensar que uma viralização nas redes digitais é suficiente para ganhar uma campanha é uma miragem. “Se chegar somente até aqui, não está conseguindo uma verdadeira viralidade, senão simplesmente endogamia”, afirma @Ciudadano_zero. O componente territorial de Ahora Madrid é um de seus grandes acertos. Por um lado, o ecossistema de nós de Ganhemos herdou um tecido social do 15-M nos bairros.
Antes do início da campanha, Ahora Madrid estava realizando encontros nos bairros. E em todas as campanhas lançadas, o território tem sido uma plataforma central. #ProyectoresConManuela projeta imagens da candidata de Ahora Madrid. Madrid  con Manuela organiza sprints para colar cartazes e procissões com criações gráficas, e incentiva pessoas que falem com seus vizinhos no MundoReal (TM). Existe, inclusive, um mapa no GoogleMaps chamado Manuela y tú, em que se mapeiam ações pró-Manuela.
9. Ruptura simbólica. A irrupção da criatividade na campanha cidadã em apoio à Ahora Madridativou algo chave em qualquer campanha: a emotividade. A cor e o aroma do Hino à Manuela Carmena, minha prefeita, “uma adaptação rumotrônica-easylisteningliungelizard do hit de Julius Church”, desmonta qualquer narrativa antagonista contra a candidata. A canção Manuela, de Belén Coca, uma remistura do clássico de Julio Iglesias, também desorganiza a campanha dos partidos clássicos, em que o ataque e a projeção do negativo sobre o rival é habitual.
A disrupção simbólica das toneladas de criações gráficas geradas ao redor de Manuela Carmena tem um calculado intento de dar a volta no estado anímico da Espanha da crise. Manda o otimismo, o entusiasmo, o coletivo, o desejo de mudança. O evento Festão pela democracia em Madrid, que se abebera transversalmente do “se não posso dançar não é a minha revolução” de Emma Goldman, supõe um chega-pra-lá na política clássica.
Convocado para o domingo, 24, às 22 horas, convida a dançar em cada praça, a dançar por Manuela: “O rumor já manda sinais. A nossa vingança será sermos felizes. No próximo #24M começa a mudança. Dança na sua praça. Dança por Manuela. Venha com amigos. Leve confete. E purpurina. Um ingrediente básico: entusiasmo. O Festão durará quatro anos (e os que virão).”
10. O meme não é a mensagem. Jason Rowan, autor do livro Memes, inteligência idiota, política rara e folclore digital, é uma entrevista recente, fala da importância dos memes na atual campanha: “A memesfera cria um rumor constante ao redor dos debates, personagens ou eventos que acontecem na política formal.” Joss Hand, em seu artigo O meme não é a mensagem, alerta sobre a insuficiência dos memes virais para a consecução de objetivos sociais ou políticos. O meme cumpre a sua função catártica e disruptiva, mas, em palavras de Joss Hand, “são necessários movimentos alternativos que possam comprometer-se com uma contraofensiva em longo prazo, para influenciar a opinião pública.”
As campanhas da #ManuelaMania desenharam uma dupla camada de memes e mensagens em longo prazo extremamente efetiva. Julio Iglesias projetado numa parede pedindo o voto a Manuela (que era o título de uma canção sua) é um meme que rompe o dissenso contra Ahora Madrid e torna visível a nova camada de significados, propostas e expectativas, escondidas pelo telão dos grandes meios de massas.

ADA, PREFEITA DE BARCELONA: "A LUTA É GLOBAL"

ADA, PREFEITA DE BARCELONA: "A LUTA É GLOBAL"
(a partir de 11:30 na entrevista ao DemocracyNow)
"Existe uma continuidade de lutas nos últimos 15 anos. Desde o final dos anos 1990 e começo de 2000, um longo ciclo de protestos começou e ele continua até os dias de hoje: o movimento antiglobalização, o movimento internacional contra a guerra, o movimento dos indignados, várias lutas por moradia, por paz. Todas essas mobilizações que aconteceram não apenas aqui, mas numa escala global, têm muitas coisas em comum. Primeiro, a dimensão global: a percepção que os nossos problemas políticos e econômicos têm uma dimensão global, de maneira que precisamos trabalhar juntos em rede. Somos uma única realidade econômica global e é essencial trabalhar em alianças. Segundo, a necessidade de democracia real, a percepção que, ainda que antes tivéssemos instituições democráticas, compartilhamos a sensação que as decisões não são tomadas pelo parlamento, mas pela direção das empresas e instituições internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, que são profundamente antidemocráticas, que as pessoas não controlam, e que decidem contra a própria cidadania, gerando miséria pelo mundo. A percepção que a democracia foi sequestrada provocou muitos levantes, muitas mobilizações de base, "desde baixo", em busca de representação direta. A democracia formal não é suficiente, não nos representa, e portanto precisamos encontrar novas formas de participação política em que cada um seja ator, em que cada pessoa possa contribuir diretamente. Todas essas mobilizações nos últimos 15 anos, que cada vez mais usam as tecnologias, a internet e as redes sociais, perseguindo formas inovadoras e diretas de comunicação, em certa medida, atualizaram a democracia, atualizaram as formas de participação política. Essas mobilizações têm muitas expressões distintas em diferentes movimentos pelo mundo, mas claramente existe um excesso que une todas elas."
(via Javier Toret Medina) In BH em Comum