terça-feira, 15 de outubro de 2013

O que é a luta de classes, aqui e agora?

TONI NEGRI - CARTA A UM AMIGO
(fragmento)

"O que é a luta de classes, aqui e agora? É uma alternativa de vida – presente – à uma acumulação de morte – presente. Uma riqueza enorme que se move – os poros e os vazios do ser são ocupados por uma produção independente em todo lugar onde a ordem capitalista não chega com violência suficiente, lá onde é obrigado a permitir tecidos esponjosos e receptivos. A história do arranha-céu fechado é a de um poder que desde a plenitude de sua estrutura exige articular qualquer iniciativa que permita a reprodução de seu ritmo biológico: a autocracia recomeça sempre o sonho da autarquia, mas em cada uma dessas articulações, o poder encontra outra coisa – obstáculos, um contra-poder. Linhas heterogêneas de desenvolvimento. Forças que não querem entrar no Palácio, que o odeiam. E assim o matam? Só com este afastamento ativo? Talvez. O que é certo, em todo caso, é que lutamos no exterior e contra o Palácio. Esta luta entre a morte e uma nova vitalidade se desenvolve continuamente."

Toni Negri

Fragmento de carta a um amigo. A carta completa pode ser lida aqui:http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/?p=1978

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Por uma metrópole de código aberto

Por uma metrópole de código aberto

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Doze Teses sobre Manifestações de Rua Como Forma de Comunicação Política | CEADD

Doze Teses sobre Manifestações de Rua Como Forma de Comunicação Política | CEADD

1. Protestos de rua, mobilização de multidões na cena pública e até ocupação de espaços e obstrução de vias são formas de comunicação política. É justamente por isso, porque são comunicação, é que são chamadas de “manifestações” ou representação pública de uma posição política.
2. Por meio de manifestações, pessoas e grupos atingidos, afetados por alguma situação que consideram injusta, inadequada ou insatisfatória – e outras pessoas a elas solidárias – fazem saber ao grupo ou à instituição responsável pela situação em tela, e à sociedade em geral, que não estão de acordo com isso e que requerem mudanças urgentes.
3. Na democracia, é legítimo que pessoas e grupos lutem por interesses próprios e que usem manifestações como meio de luta. Mas nem todos os interesses são generalizáveis nem toda a satisfação de reivindicações merecerá a solidariedade dos não afetados pela situação em tela. Num universo de recursos finitos, quase sempre quando um conjunto de interesses é satisfeito isso diminui a possibilidade de que outros interesses possam ser atendidos. Por isso mesmo, o grupo portador de reivindicações via manifestações precisa captar o máximo de simpatia do resto da sociedade, não apenas porque os outros podem exercer pressão favorável ao grupo em questão, mas, sobretudo, para evitar a sensação de este grupo está avançando pretensões indevidas e egoístas sobre o patrimônio comum, em prejuízo dos demais.
4. Por essa razão, o modo como a mensagem-manifestação é elaborada será fundamental para a captação da benevolência dos demais. O coletivo manifestante terá que dramatizar a própria situação (no sentido de produzir narrativas dramáticas em que se representam o modo como a circunstância injusta lhe atinge), transformar a circunstância contra a qual luta em problema de toda a sociedade e, sobretudo, vender a ideia de que remover a situação opressora será um benefício para todos e não apenas para o grupo. E isso tudo ainda tendo que lidar com discursos e narrativas adversárias e eventuais interesses antagônicos, que também são legítimos.
5. Toda manifestação, enquanto mensagem produzida diretamente pelo grupo portador de reivindicações, será mediada por outro conjunto de mensagens antes de chegar, para além do círculo mais restrito dos envolvidos e engajados, aos corações e mentes do resto das pessoas. Este outro conjunto de mensagem poderá ser produzido por cidadãos anônimos nas suas redes de comunicação horizontal, via internet, mas é produzido principalmente pelo jornalismo industrial. Que usará os seus critérios próprios de seleção e decisão editorial e realizará a cobertura conforme o interesse do seu modelo (imaginado) de consumidor, o que normalmente significa que não será conforme o interesse do grupo manifestante. A manifestação retirada das ruas para páginas e telas, depois de editadas, reorganizadas como histórias, estruturadas conforme a machetaria das narrativas jornalísticas não é nem pode ser a mesma coisa, ter o mesmo sentido e configurar-se exatamente como a mesma mensagem que interessa ao grupo portador de reivindicações. Não tem jeito. Estamos em um mundo em que todos os fatos e eventos são mediados pela cobertura do noticiário, por que seria diferente no caso de manifestações? Esquecer-se do fato de que há mediação pode ser o pecado mortal das manifestações de rua.
6. Tem papel decisivo em toda a manifestação o conceito de política, Estado e democracia que sustenta a estratégia de comunicação por trás dos protestos, passeatas, obstruções e ocupações. Um grande problema das manifestações brasileiras consiste na concepção que compartilham acerca da política (“política é uma atividade indigna e classista, realizada por canalhas cujo objetivo é a satisfação dos interesses próprios e que, ademais, empregam a sua energia para prejudicar os trabalhadores e os pobres”), do Estado (“estruturalmente um adversário da sociedade, ocupado por governos que têm recursos infinitos e fazem políticas públicas orientadas exclusivamente por um fator chamado «vontade política»”) e da democracia (“democracia é um sistema em que os trabalhadores, os pobres e qualquer coletivo em que eu esteja têm satisfeitos todos os seus interesses; democracia verdadeira é um sistema em que organizações sociais governam e se autorrepresentam ao tempo em que representam o povo”).  Os inconvenientes desses pressupostos são: a) expectativas irrealizáveis sobre os limites e processos da fazenda pública e dos orçamentos públicos; b) incompreensão dos processos legislativos, dos procedimentos de formulação e implantação de políticas públicas e das demais regras de funcionamento do Estado democrático; c) dificuldade de estabelecimento de pontes com “o resto da sociedade” e com as instituições do Estado, uma vez que a parte reivindicante se autocompreende como sendo o Todo, de fato ou de direito.
7. Organizadores de manifestações em geral são muito habilidosos na mobilização interna dos afetados pela situação injusta, na comunicação para dentro do grupo a fim de reforçar o vínculo interno, para criar uma identidade coletiva e, por fim, com o objetivo de produzir a indignação moral necessária para por o grupo em movimento. Mas podem ser um desastre na criação de pontes com os que estão fora do coletivo, seja com os responsáveis por alterar o indesejável estado das coisas, seja com aqueles cuja solidariedade seria essencial para exercer pressão sobre os primeiros ou, ao menos, para que não fosse exercida pressão em sentido contrário ao que se reivindica. Aparentemente, quanto mais forte o capital social que torna o grupo compacto, mais fraco é o capital social que constrói conexões, que negocia reivindicações e capta benevolência. Assim, grupos compactos podem estar tão certos da justiça do que reivindicam e de tal modo imbuídos do furor moral contra injustiça que sofrem que frequentemente imaginam que podem conseguir satisfazer reivindicações “na marra”, sem persuasão ou negociação.
8. Manifestantes, da mesma maneira que atores de muitos outros setores da sociedade, não necessariamente possuem habilidades ou competências para lidar com os mediadores profissionais do jornalismo, embora precisem contar com esta mediação e lidar com ela para conseguir passar a sua mensagem aos seus destinatários. Produzir mensagens é uma coisa, garantir que ela seja entregue conforme a intenção de quem a produz é outra, bem diferente. Outros setores sociais resolveram isso contratando capacidade profissional de comunicadores (RP, assessores e consultores de comunicação e imagem, jornalistas, produtores, publicitários) para cuidar da própria visibilidade e da imagem e reputação que lhes convém na esfera de visibilidade pública monopolizada pelos campos profissionais e pelas indústrias da comunicação. Atores da sociedade civil, principalmente atores de mobilizações sociais que, portanto, são eventuais e não estáveis (diferentemente das organizações sociais), não contam com esta ajuda profissionalizada. Por desconhecer a mediação necessária do noticiário e achar que a mensagem saída “das ruas” chegará, “desintermediada”, a todos, o manifestante viverá sempre a grande frustração de não ver o que ele deseja manifestar refletido no jornal. Para ele, o jornalismo teria uma obrigação moral e uma capacidade ontológica de refletir as coisas e só não o faz porque veicula interesses políticos divergentes dos manifestantes. Acontece, porém, que o jornalismo não é um espelho onde os fatos, eventos e mensagens produzidas na realidade se refletem integralmente. A cobertura jornalística é uma produção de narrativas, estruturadas segundo critérios específicos, em que fatos são editados, mensagens são reorganizadas e recontextualizadas, discursos e imagens são agrupados e encaixados, tudo para satisfazer o consumidor modelo de informação daquele veículo.  O jornalismo não é o entregador da mensagem das manifestações de rua. Não é, nem o pode ser. Todo fato ou mensagem hoje é mediado pelo jornalismo, não porque os jornalistas sejam perversos e monopolistas, mas porque é na cobertura do noticiário que as pessoas vão buscar as informações sobre os fatos do dia.
9. Grupos portadores de reivindicações que não conseguem ou não desejam construir pontes tendem a se transformar em coletivos agressivos contra todos os que estão fora deles e que lhes parece obstáculos. À medida que sentem que não estão sendo ouvidos pelo destinatário primário das suas reivindicações e/ou que a sua mensagem não está sendo refletida no noticiário, vão elevando a voz e radicalizando as atitudes, numa falsa esperança de que se gritar podem ser, enfim, ouvidos e atendidos. É normal a este ponto iniciar um processo de transformação do oposto em adversário e do adversário em inimigo. Formam-se, então, setores mais radicalizados dentro grupo, dispostos a partir para o confronto, e a causa vai sendo perdida – mesmo a causa mais justa não consegue prosperar quando passa a ser defendida e representada publicamente por grupos que são objetos de grande antipatia social.
10. Na “fase de inimizade”, o primeiro alvo são os que poderiam resolver a situação adversa que motivou a reivindicação, os destinatários primários da reivindicação, e tudo o que pareça a eles associados. Se estes destinatários são os políticos, o objeto imediato do confronto pode ser o espaço físico ocupado por eles, a polícia e as instituições públicas e financeiras que constituem o status quo político e econômico, numa escala crescente de inclusão de alvos. A segunda classe de alvos podem ser os mediadores profissionais das narrativas das manifestações – o jornalismo -, uma vez que não entregam a mensagem que os manifestantes produzem e que, segundo o raciocínio comum, não o fazem porque são adversários. A terceira classe de alvos é “o resto da sociedade”, que, segundo o raciocínio dos manifestantes, precisam de algum modo experimentar na própria carne a opressão e a frustração dos portadores de reivindicação. Trata-se da “socialização de transtornos” – se eu sofro, todos têm que sofrer para ver se alguma coisa muda. Isso cria, paradoxalmente, uma nova classe de pessoas afetadas por situações injustas ou indesejadas: os afetados por manifestações.
11. Manifestações eficientes são as que conseguem ter a sua mensagem entregue ao grande público e que, por esse meio, consegue persuadi-lo a apoiar o que reivindicam. Manifestações na escala massiva de participação, raras, tendem a ser forças incontroláveis na modificação de agendas e políticas e até na alteração de regulamentações, leis e demais formas de decisão política. Isso porque, de algum modo, o público em geral se sente representado pelo que se reivindica e não se sente ameaçado pela satisfação dos interesses manifestados. Manifestações na escala de multidões e grupos enfrentam maiores dificuldades porque há mais gente fora do que dentro do coletivo, de forma que enfrentam dificuldades suplementares para produzir uma mensagem que, primeiro, chegue ao público e, segundo, que o convença da justiça da causa defendida. Nesta escala, é preciso cuidar muito da forma da mensagem, dos vários destinatários a que ela se destina e, enfim, do modo como operam os mediadores que se colocam entre os manifestantes e o público em geral.
12. Em todo ciclo de manifestações de rua há que se levar em conta o fenômeno de psicologia social que podemos chamar de “fadiga de compaixão”. O público tem uma cota limitada de compaixão, de empatia na dor e no sofrimento dos outros e, portanto, de paixão moral para ser despendida com os eventos presentes no noticiário. Depois de certa duração e de determinada intensidade na solicitação dos seus sentimentos de compaixão, da sua paixão intelectual e moral, o público já não tem mais esses sentimentos disponíveis e vai precisar de um tempo “defeso”, de uma folga na demanda por piedade e engajamento. Neste período perde-se, inclusive, a capacidade de distinguir uma causa da outra, uma tragédia da outra, uma reivindicação da outra. É um período de insensibilidade, cuja velocidade de recuperação vai depender dos níveis de dispêndio de compaixão que o ciclo anterior de solicitação de empatia demandou. Desde junho acompanhando manifestações, aparentemente ninguém aguenta mais ver manifestações no telejornal da noite e o público já nem é capaz de claramente distinguir uma causa da outra, todas lhes parecem iguais e dramatizadas num nível histérico de fogo e quebra-quebra. O público brasileiro chegou a outubro precisando de uma folga.
* Wilson Gomes é Professor Titular de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia e um dos coordenadores do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD).
Foto: RD1 (http://rd1.ig.com.br/televisao/renan-calheiros-proibe-tv-senado-de-exibir-ao-vivo-manifestacoes-em-brasilia/187196)

Sem Juízo, por Marcelo Semer: ....juiz indefere liminar de reintegração de posse na USP....

Sem Juízo, por Marcelo Semer: ....juiz indefere liminar de reintegração de posse na USP....
"Outrossim, frise-se que nenhuma luta social que não cause qualquer transtorno, alteração da normalidade, não tem força de pressão e, portanto, sequer poderia se caracterizar como tal."

domingo, 6 de outubro de 2013

“Monumento às Bandeiras homenageia aqueles que nos massacaram”, diz liderança indígena

Em carta, Marcos Tupã, coordenador da Comissão Guarani Yvyrupá, responde às críticas sobre a intervenção em escultura ao lado do Parque Ibirapuera, em São Paulo
Da Redação
Nesta semana, a obra do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret recebeu tintas vermelhas, em um protesto realizado por índios do estado contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, que retira do governo federal a autonomia da demarcação de terras, transferindo para o Congresso Nacional. O monumento, inaugurado em 1953, presta uma homenagem aos bandeirantes, responsáveis pelo assassinato de índios, nos séculos 17 e 18. Leia abaixo a carta de Marcos Tupã:
Monumento à resistência do povo guarani
Para nós, povos indígenas, a pintura não é uma agressão ao corpo, mas uma forma de transformá-lo. Nós, da Comissão Guarani Yvyrupa, organização política autônoma que articula o povo guarani no sul e sudeste do país, realizamos no último dia 02 de outubro, na Av. Paulista, a maior manifestação indígena que já ocorreu em São Paulo desde a Confederação dos Tamoios. Mais de quatro mil pessoas ocuparam a Av. Paulista, sendo cerca de quinhentas delas dos nossos parentes, outros duzentos de comunidades quilombolas e mais de três mil apoiadores não-indígenas, que viram a força e a beleza do nosso movimento. Muitos meios de comunicação, porém, preferiram noticiar nossa manifestação como se tivesse sido uma depredação de algo que os brancos consideram ser uma obra de arte e um patrimônio público.
Saindo da Av. Paulista, marchamos em direção a essa estátua de pedra, chamada de Monumento às Bandeiras, que homenageia aqueles que nos massacraram no passado. Lá subimos com nossas faixas, e hasteamos um pano vermelho que representa o sangue dos nossos antepassados, que foi derramado pelos bandeirantes, dos quais os brancos parecem ter tanto orgulho. Alguns apoiadores não-indígenas entenderam a força do nosso ato simbólico, e pintaram com tinta vermelha o monumento. Apesar da crítica de alguns, as imagens publicadas nos jornais falam por si só: com esse gesto, eles nos ajudaram a transformar o corpo dessa obra ao menos por um dia. Ela deixou de ser pedra e sangrou. Deixou de ser um monumento em homenagem aos genocidas que dizimaram nosso povo e transformou-se em um monumento à nossa resistência. Ocupado por nossos guerreiros xondaro, por nossas mulheres e crianças, esse novo monumento tornou viva a bonita e sofrida história de nosso povo, dando um grito a todos que queiram ouvir: que cesse de uma vez por todas o derramamento de sangue indígena no país! Foi apenas nesse momento que esta estátua tornou-se um verdadeiro patrimônio público, pois deixou de servir apenas ao simbolismo colonizador das elites para dar voz a nós indígenas, que somos a parcela originária da sociedade brasileira. Foi com a mesma intensão simbólica que travamos na semana passada a Rodovia dos Bandeirantes, que além de ter impactado nossa Terra Indígena no Jaraguá, ainda leva o nome dos assassinos.
A tinta vermelha que para alguns de vocês é depredação já foi limpa e o monumento já voltou a pintar como heróis, os genocidas do nosso povo. Infelizmente, porém, sabemos que os massacres que ocorreram no passado contra nosso povo e que continuam a ocorrer no presente não terminaram com esse ato simbólico e não irão cessar tão logo. Nossos parentes continuam esquecidos na beira das estradas no Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul e no Oeste do Paraná continuam sendo cotidianamente ameaçados e assassinados a mando de políticos ruralistas que, com a conivência silenciosa do Estado, roubam as terras e a dignidade dos que sobreviveram aos ataques dos bandeirantes. Também em São Paulo esse massacre continua, e perto de vocês, vivemos confinados em terras minúsculas, sem condições mínimas de sobrevivência. Isso sim é vandalismo.
Ficamos muito tristes com a reação de alguns que acham que a homenagem a esses genocidas é uma obra de arte, e que vale mais que as nossas vidas. Como pode essa estátua ser considerada patrimônio de todos, se homenageia o genocídio daqueles que fazem parte da sociedade brasileira e de sua vida pública? Que tipo de sociedade realiza tributos a genocidas diante de seus sobreviventes? Apenas aquelas que continuam a praticá-lo no presente. Esse monumento para nós representa a morte. E para nós, arte é a outra coisa. Ela não serve para contemplar pedras, mas para transformar corpos e espíritos. Para nós, arte é o corpo transformado em vida e liberdade e foi isso que se realizou nessa intervenção.
Aguyjevete pra todos que lutam!
Marcos dos Santos Tupã, 43, é liderança indígena e Coordenador Tenondé da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY).

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Nós dizemos revolução_ Beatriz Preciado

Por Beatriz Preciado | Trad.: Bárbara Szaniecki
Parece que os gurus da velha Europa se obstinam ultimamente a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy, Indignados, handi-trans-gays-lésbicas-intersex e postporn que não poderemos fazer a revolução porque não temos uma ideologia. Eles dizem “uma ideologia” como minha mãe dizia “um marido”. Pois bem, não precisamos nem de ideologia nem de marido. As novas feministas, não precisamos de marido porque não somos mulheres. Assim como não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem o refrão católico-muçulmuno-judeu. Falamos uma outra linguagem. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem controlar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos montemos nos cavalos para fugir juntos do abatedouro global. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, Branco-Negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que teu aparelho de produção de verdade já não funciona mais… Quanto de Galileu precisaremos desta vez para re-aprender a nomear as coisas, nós mesmos? Eles nos fazem a guerra econômica a golpe de facão digital neo-liberal. Mas nós não choraremos a morte do Estado-providência, porque o Estado-providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inserção das pessoas com deficiência, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. Está na hora de pôr Foucault na dieta handi-queer e de escrever a morte da Clínica. Está na hora de convidar Marx para um ateliê eco-sexual. Não vamos adotar o estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois já travaram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se tornou o braço punitivo cuja única função será aquela de re-criar a ficção da identidade nacional por meio do medo securitário. Nós não desejamos nos definir como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Nós não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não desejamos produzir francês, e tampouco europeu. Não desejamos produzir. Nós somos a rede viva decentralizada. Nós recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Nós queremos uma cidadania total definida pelo compartilhamento das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise, nós dizemos revolução.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

"...Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão..."

"... Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo... "

"...O homem como um ser inconcluso, consciente de sua inconclusão, e seu permanente movimento de busca do ser mais..."


( Pedagogia do oprimido  - Paulo Freire, 1970  )    

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Socialista Morena » Qual era a onda da Libelu?

Socialista Morena » Qual era a onda da Libelu?

Apresentação de Guifi.net, a maior rede sem fio autogerenciada do mundo | MediaLab UFRJ

Apresentação de Guifi.net, a maior rede sem fio autogerenciada do mundo | MediaLab UFRJ

Plan "Athens" provides for the closure of 150 faculties in universities and technical colleges | GRReporter.info- News from Greece - Breaking News, Business, Sport, Multimedia and Video.

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University of Athens, NTUA Suspend Operations | Greece.GreekReporter.com Latest News from Greece

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CRISTOVAM BUARQUE (PDT/DF) via facebook


CRISTOVAM BUARQUE (PDT/DF) FALA, NA TRIBUNA DO SENADO, EM 06-09-2013, ÀS VÉSPERAS DAS MANIFESTAÇÕES DO DIA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, SOBRE A CRISE DE REPRESENTATIVIDADE E DA CRIMINALIZAÇÃO DOS PROTESTOS POPULARES, ADVERTINDO SOBRE O RISCO DE AUMENTAR A DISTÂNCIA ENTRE OS ANSEIOS DO POVO E A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA.

“(...) Uma notícia hoje de manhã me chamou a atenção: um grupo de jovens sentados em cima do carro da polícia, em forma de rebeldia e de deboche, impedindo o carro de avançar, até que algumas ações foram tomadas... E agiram assim porque não estão encontrando coisas positivas de nossa parte. Eles estão se manifestando por descontentamento, estão chegando ao ponto de mostrar que o Brasil vive uma guerrilha cibernética, porque convocada pela internet... O Estado e o povo na rua estão em conflito... Não se trata mais da guerra civil que vivemos, por 20 ou 30 anos, dos desesperados... Trata-se, agora, de uma guerrilha dos desiludidos... O povo enfrentando o Estado pelo descontentamento, pela desesperança... O que estamos fazendo?... Nós [representantes federais] estamos dando as costas para o que está acontecendo no Brasil... Eu creio que nós não estamos à altura do momento histórico em que estamos vivendo...”

“O povo cansou da impunidade..., das prioridades equivocadas..., do voto secreto no legislativo..., da tolerância do legislativo federal com a corrupção..., da ineficiência econômica..., do descaso dos serviços públicos..., da improvisação no tratamento de assuntos essenciais de interesse público..., da violência urbana..., do desprestígio do Congresso e de todos os partidos, sem nenhuma exceção... O povo percebeu que ter um carro não basta para ter um transporte satisfatório... E nós temos tido ‘governos do jeitinho’...” Quando se quebra a relação de confiança entre representantes e representados, “acaba o pacto social que nos une” e “partidos e sindicatos ficam renegados”... Assim, testemunhamos “revoluções sem líderes”...

Essas manifestações têm alterado a rotina das cidades, da economia... Em relação a elas, “devemos encontrar um caminho... E este caminho não é a repressão. Não tenho simpatia por manifestantes mascarados, mas me preocupa muito que comecemos proibindo os mascarados e..., no final, estaremos proibindo todos de irem para as ruas... Nós não estamos à altura de entender a gravidade desses dois fatos: a falência do acordo social e o surgimento de uma arma poderosa para manifestações que é a internet... Esta casa deveria construir um novo acordo social para o Brasil, um novo pacto social...”

“Estamos falando do futuro do Brasil que vocês [reporta-se, agora, aos estudantes de Brasilândia que estavam na plenária do Senado Federal] deveriam ter, que vocês merecem ter... Nós [representantes federais] não estamos fazendo como deveríamos, nós não estamos construindo... Por que não retomamos os trabalhos, nessa casa, em caráter permanente, fazendo um pacto social que recupere o casamento da sociedade com seu Congresso... Não falo somente de um pacto por pequenas medidas, de mudanças na forma de eleição...”

“Que tipo de economia nós queremos?... Ter apenas crianças matriculadas nas escolas não basta, mas sim escolas públicas da mais alta qualidade, para termos jovens construtores do Brasil e construtores deles mesmos... O que podemos fazer para que as pessoas não precisem de ir às ruas, num dia de festa e comemoração, para se manifestarem contra seus líderes?... Não estamos percebendo a gravidade do que nós vivemos... A tragédia está dando seus sinais... Os jovens, mascarados ou não, estão dando os sinais...de que as coisas não estão bem...”

“Devemos acabar com este famigerado voto secreto. É uma vergonha para cada político votar sem que seu eleitor saiba como ele votou... Não podemos tolerar o constrangimento de votar secretamente... Se nós mantivermos qualquer forma de voto secreto, estaremos jogando gasolina no fogo das manifestações, nessa guerrilha cibernética que acontece hoje no Brasil... Não é para jogar água na guerrilha cibernética, mas para dialogar..., oferecer respostas, propostas, novos rumos..., para que o Brasil possa ter de volta o seu povo em casa ou nas ruas festejando o 7 de setembro... Lamento este profundo divórcio que estamos vivendo entre o povo e as suas lideranças... Vou dar a minha contribuição, trazendo ideias, não apenas sobre Educação... Precisamos refazer este grande acordo nacional chamado Brasil...”
*
Link de acesso ao discurso, na íntegra, de Cristovam Buarque: https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=BRhXYwOAv5E#t=85


*
Esta importante ‘jeremiada’ do Senador Cristovam Buarque mostra a sua profunda preocupação com a crise da democracia representativa no Brasil. No entanto, o tom central ainda é resgatar apenas a democracia representativa, para que o ‘povo’ fique em casa (se seus representantes se tornarem, de fato, ‘meritosos’ e representativos, pois os conflitos de ideias, interesses e projetos deveriam se traduzir apenas entre os representantes) e somente saia às ruas para festas. Nesse sentido, o discurso não colabora com o tema da democracia participativa, que é outra importante agenda que as manifestações têm trazido. Em alguma medida, há no discurso do senador um esvaziamento desta questão.

Assim, fiquei com a impressão de que a experiência das manifestações no Brasil, tal como significada pelo senador, não estaria cumprindo a sua expectativa de ‘povo pacífico’, que forma o seu olhar sobre “povo”. Por isso, parece-me que a sua ‘jeremiada’ tem um fundo de crítica contra os representantes que, por seu mau exemplo de corrupção e divórcio com os representados, são os efetivos responsáveis por o ‘povo’ estar perdendo a sua “essência pacífica”, não cumprindo sequer – se considerarmos a lógica liberal-democrática de mérito – as expectativas do sistema representativo democrático, que exige que sejam lideranças competentes com projetos consistentes para o país.

Resumidamente, a ‘jeremiada’ do Senador Cristovam Buarque adverte contra o risco de a democracia representativa estar colaborando, em função das suas lideranças atuais, para a sua autodestruição, mas não alça nada que aponte para uma valorização da democracia participativa. No final das contas, o seu discurso é isso, uma ‘jeremiada’: “Políticos, sejam bons representantes para o ‘povo’ voltar para casa e somente ir às ruas para festas, como ‘sempre foi’. Amém...”.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

As sementes do fascismo, no século 21

As sementes do fascismo, no século 21
Para retomar acumulação, em tempos de crise, capital ensaia estratégia particular. Inclui guerras, especulação financeira máxima e criminalização das “populações excedentes”  
Por William I. Robinson | Tradução: Taís Gonzalez
Em Policing the Crisis, clássico estudo conduzido, em 1978, pelo famoso socialista e teórico cultural Stuart Hall e alguns colegas, os autores mostram que a reestruturação do capitalismo, uma resposta à crise da década de 1970 – a última grande crise mundial do capitalismo até a de 2008 –, produziu, no Reino Unido e em todo o mundo, um “estado excepcional”. Significava um processo de ruptura com os mecanismos de controle social, então consensuais, e um autoritarismo crescente. Eles escreveram:
“Este é um momento extremamente importante. Esgotado o repertório da hegemonia por meio do consentimento, destaca-se cada vez mais a tendência ao uso rotineiro das características mais repressivas do Estado. Aqui, o pêndulo no exercício da hegemonia inclina-se, de forma decisiva. De um período em que consentimento suplantava a coerção, passa-se a outro em que a coerção volta a ser a forma natural e rotineira de assegurar o consentimento. Esse deslocamento interno do pêndulo da hegemonia – de consentimento para coerção – é uma resposta do Estado à crescente polarização (real e imaginária) das forças de classes. É, exatamente assim, que uma “crise de hegemonia” se expressa… O lento desenvolvimento de um estado de coerção legítimo, o nascimento de uma sociedade de “lei e ordem”… Todo teor da vida social e política é transformado (neste momento). Um novo ambiente ideológico, claramente distinto, é urdido. (Policing the Crisis, pp. 320-321).”
Esta é também uma descrição exata da atual conjuntura. Estamos testemunhando a transição de um estado de bem-estar social para um estado de controle social, em todo o mundo. Estamos diante de uma crise global sem precedentes, dada sua magnitude, seu alcance global, a extensão da degradação ambiental e da deterioração social e a escala dos meios de violência. Nós realmente estamos enfrentando uma crise da humanidade, entramos em um período de grandes agitações, de mudanças e incertezas. E esta crise é distinta dos episódios anteriores de crises mundiais – a de 1930 ou a de 1970 – precisamente porque o capitalismo mundial é fundamentalmente distinto, no início do século 21.
Entre as transformações qualitativas que ocorreram no sistema capitalista, em face da globalização das últimas décadas, há quatro que quero destacar. A primeira é a ascensão do capital transnacional e a integração de todos os países dentro de um novo sistema financeiro de produção globalizada. A segunda é o surgimento de uma nova Classe Capitalista Transnacional (TCC, sigla em inglês para Transnational Capitalist Class). Este grupo apoia-se em novos circuitos globais de acumulação, ao invés dos velhos circuitos nacionais; A terceira transformação é a ascensão da que eu chamo de aparatos estatais transnacionais. A quarta, o aparecimento de novas relações de desigualdade e dominação na sociedade global, incluindo a crescente importância das desigualdades sociais e de classe, relacionadas aos desequilíbrios Norte-Sul.
A atual crise
A crise atual combina aspectos estruturais similares aos das crises anteriores (dos anos 1970 e 1930) com características únicas, a saber:
- O sistema está atingindo rapidamente os limites ecológicos de sua produção. Já temos vários cientistas ambientais que fazem referência ao “ponto de inflexão”. Esta dimensão não pode ser subestimada;
- O magnitude brutal da violência e do controle social, bem como a extensão do controle sobre os meios de comunicação globais e de produção e circulação de símbolos e imagens. Neste sentido, nós somos testemunhas de novos e assustadores sistemas de controle social e repressão que precisamos analisar e aos quais devemos resistir;
- Estamos chegando ao limite da expansão do capitalismo – ou seja, não há mais novos territórios significativos a serem integrados ao sistema. A desruralização já é bem avançada; a mercantilização do campo e dos espaços pré e não-capitalista são intensas;
- O surgimento de uma população “excedente” que habita um “planeta de favelas“, afastada da economia produtiva, jogada às margens e sujeita a sofisticados sistemas de controle social e à destruição – a um ciclo mortal de expropriação, exploração e exclusão.
- O descolamento entre economia globalizada e um sistema de estados-nações baseado em uma política autoritária. Os aparatos estatais transnacionais são incipientes. Eles não foram capazes de desempenhar o papel que os estudiosos do sistema capitalista mundial designam por “hegemon”, ou um estado-nação líder com poder e autoridade suficientes para organizar e estabilizar o sistema.
Neste contexto, vamos rever como a atual crise se desenvolveu. O capital transnacional emergente passou por uma grande expansão nas décadas de 1980 e 1990. Isto envolveu o que poderíamos chamar de hiper-acumulação, alcançada por meio de uma série de fatores. Envolve a introdução de novas tecnologias, sobretudo da informatização e da utilização da internet; políticas neoliberais que abriram o mundo para o capital transnacional; novas modalidades de mobilização e exploração da força de trabalho global, com novo ciclo de “acumulação primitiva” maciça – a expulsão e deslocamento de centenas de milhões de pessoas, especialmente das áreas rurais do terceiro mundo, que se tornaram migrantes nacionais e transnacionais.
Mas no final da década de 1990, a estagnação instalou-se na economia global. O sistema enfrentava novamente uma crise. A nítida polarização social global e as desigualdades crescentes em todo o mundo alimentavam o problema crônico da “sobre-acumulação”. Muito simples, as desigualdades globais e o empobrecimento de uma ampla parcela da sociedade significam que o capital transnacional não pode encontrar saídas produtivas para descarregar as enormes quantidades de excedentes que acumulou. No início do século 21, a Classe Capitalista Transnacional procurou enfrentar a estagnação e a sobre-acumulação por meio de diversos mecanismos.
Um desses mecanismos é o que chamo de acumulação militarizada. Trata-se de fazer guerras e realizar intervenções que desencadeiam ciclos de destruição e reconstrução, além de gerar enormes lucros para um, cada vez maior, “complexo financeiro-militar-prisional-industrial-de energia-e-segurança”. Estamos vivendo agora em uma economia global de guerra, que vai além de “guerras quentes” como a do Iraque, do Afeganistão ou da Síria. Outro mecanismo é a invasão e saque dos orçamentos públicos. A Classe Capitalista Transnacional usa seu poder financeiro para assumir o controle das finanças do Estado e impor mais “austeridade” à maioria dos trabalhadores. Emprega seu poder estrutural (por controlar a economia global) para acelerar o desmantelamento do que ainda resta do salário social e do estado de bem-estar. E o terceiro mecanismo é a frenética especulação financeira em todo mundo – transformando a economia global em um gigantesco cassino. A TCC descarregou trilhões de dólares em especulação imobiliária, em alimentos, energia, mercados dos commodities globais, em mercados de títulos em todo o mundo (ou seja, nos orçamentos públicos e nas finanças estatais), e em outros tantos setores e seus derivados.
A ameaça do “fascismo do século 21″
Como as forças políticas e sociais em todo o mundo estão respondendo à crise? Ela resultou em uma rápida polarização na sociedade global. Forças de direita e de esquerda estão em ascensão. Entre outros, quero destacar três respostas para a crise que parecem estar em disputa.
Uma delas é o que poderíamos chamar de “reformismo de cima”. Este reformismo tem como finalidade estabilizar o sistema, salvando-o de si mesmo e de alternativas mais radicais, vindas de baixo. No entanto, nos anos que se seguiram ao colapso do sistema financeiro global de 2008, parece que esses reformadores não tiveram a capacidade (ou a vontade), de prevalecer sobre o poder do capital financeiro transnacional. Uma segunda resposta é a resistência popular e de esquerda, a partir de baixo. À medida em que conflitos sociais e políticos eclodem em todo o mundo, parece surgir uma revolta global organizada. Embora essa resistência pareça insurgir-se após 2008, ela ocorre de modo bastante desigual, nos distintos países e regiões e enfrenta muitos problemas e desafios.
A última resposta é a que eu chamo de fascismo do século 21. A ultra-direita é uma força emergente em muitos países. Em linhas gerais, busca-se fundir o poder político reacionário com o capital transnacional e organizar uma base de massas entre os setores historicamente privilegiados da classe trabalhadora mundial – como os trabalhadores brancos, no Norte do planeta e as velhas classes médias do Sul. Elas vivem hoje sensação de insegurança agravada, temerosas de mobilidade social decrescente, ou mudança de status. São tentadas ao militarismo, masculinização extrema, homofobia, racismo e uma mobilização racista contra bodes expiatórios — o que inclui a própria busca de bodes expiatórios, como os imigrantes e, no Ocidente, os muçulmanos. O fascismo do século 21 evoca ideologias mistificadoras, muitas vezes envolvendo supremacia racial e ou cultural e xenofobia. Abraçam um passado idealizado e mítico. A cultura neofascista banaliza e exalta a guerra e a violência social. Procura gerar fascínio pela dominação, ao retratá-la como heroica.
É importante salientar que a necessidade dos grupos dominantes em todo o mundo, para garantir segurança e organizar o controle social em massa sobre a população excedente e as forças rebeldes, dá um impulso poderoso a projetos de fascismo neste século. Simplificando, as imensas desigualdades estruturais da economia política global não podem ser facilmente contidas por meio de mecanismos consensuais de controle social – ou seja, por meio de dominação hegemônica. Com isto em mente, vamos concluir com cinco pontos para o debate futuro sobre sobre o capitalismo global policiante.
Um estado policial global
Primeiro, um capitalismo global policiante, por meio de novas modalidades de controle social globalizado e repressão não é apenas um projeto desse fascismo do século 21. Na verdade, ele está sendo antecipado pelas elites e Estados liberais e reformistas. É um imperativo estrutural do capitalismo globalizado, ligado aos imperativos de manutenção do sistema.
Segundo, ao pensamento sobre o capitalismo global policiante, devemos nos perguntar quem precisa ser policiado, no sistema. Aqui, quero chamar a atenção para a crescente onda de mão de obra excedente. Ao invés de incorporar os marginalizados, o sistema tenta isolar e neutralizar suas reais ou potenciais rebeliões, criminalizando o pobre e despossuído – com tendências, em certos casos, para o genocídio. Os mecanismos de exclusão coerciva incluem a detenção maciça em complexos industriais-prisionais (Prison-Industrial Complex ou PIC, o termo em inglês é usado para atribuir a rápida expansão da população carcerária dos EUA que influência as políticas das empresas de privatização de cárceres e empresas que fornecem bens e serviços para agências de prisão do governo); o policiamento generalizado, leis repressivas anti-imigrantes; novas formas de manipulação de espaços, para que tanto os condomínios murados quanto guetos sejam controlados por verdadeiros exércitos de segurança privada e vigilância de alta tecnologia; campanhas ideológicas voltadas à sedução; passividade por meio do consumo e da fantasia.
Novas formas de controle social e modalidades de dominação ideológicas cruzam barreiras. Por isso, pode haver um neo-fascismo constitucional e normalizado, com instituições de representação, partidos políticos e eleições formais, enquanto o sistema político é rigidamente controlado pelo capital transnacional e seus representantes. Qualquer divergência que ameace o sistema é neutralizada, quando não liquidada.
Em terceiro lugar, devemos reconhecer que a criminalização e o controle militarizado de estruturas marginalizadas, como mecanismo de contenção preventiva, são altamente racializados. Isso nos traz de volta para Stuart Hall e seus colegas. Os autores de Policing the Crisis destacaram a natureza altamente racializada do policiamento e da criminalização de comunidades negras e imigrantes no Reino Unido. Eles desconstruíram o processo ideológico complexo de fabricar a criminalização dos oprimidos como uma função do controle social, em momentos de crises de hegemonia.
Aqui vemos fortes paralelos entre o embrionário “Estado excepcional” na década de 1970 e a atual deriva para tais Estados, nos EUA e em outros países. O deslocamento das ansiedades sociais para o crime e populações racialmente criminalizadas origina-se na crise dos 1970. Nos EUA, após as rebeliões de massa da década anterior, os grupos dominantes promoveram campanhas culturais e ideológicas sistemáticas de “lei e ordem” para legitimar a mudança de um Estado de bem-estar social para um Estado de controle e a ascensão de um complexo industrial-prisional.
“Lei e ordem” passou a significar a reconstrução e reforço das hierarquias raciais, sociais e da ordem hegemônica, após as rebeliões de 1960. Isso coincidiu com a reestruturação econômica global, o neoliberalismo e a globalização capitalista da década de 70 e anos posteriores. Agora, a criminalização ajuda a deslocar as ansiedades sociais, decorrentes da crise estrutural da estabilidade, segurança e organização social, geradas pela crise atual. Em seu chocante livro, The New Jim Crow, a jurista Michelle Alexander revela que o encarceramento em massa, nos EUA, é “como um sistema incrivelmente abrangente e bem disfarçado de controle social racializado”.
De fato, a natureza racializada das “guerras contra as drogas” hipócritas, dos encarceramentos em massa e das sentenças de morte social proferidas é tão cruel que choca os sentidos. Em uma abstração analítica, os encarceramentos em massa tomam lugar dos campos de concentração. O sistema submete uma população excedente de milhões, potencialmente rebeldes, a um aprisionamento sob violência estatal. As chamadas (e declaradas) “guerra contra as drogas” e “guerra contra o terrorismo”, bem como as não declaradas “guerra contra a juventude pobre” e a “guerra contra os imigrantes”, precisam ser colocadas neste contexto.
Em quarto lugar, em seu brilhante e ainda assustador estudo “Cities under Siege: The New Military Urbanism” ["Cidadas sitiadas: o novo Urbanismo Militar], Stephen Graham mostra como estruturas e processos de controle controle social militarizado constituem um projeto glogal que é, por definição, transnacional. É importante notar que cada país enredou-se no policiamento da crise global, assim como da economia global torna-se cada vez mais imbricada com o negócio da guerra, violência social e coerção e repressão estatal organizadas.
Quinto e último ponto: a militarização e a violência organizada tonaram-se estratégias de acumulação, independente de qualquer objetivo político, e aparecem como características estruturais do novo capitalismo global. Guerras, sistemas de encarceramento em massa, militarização das fronteiras, detenção de imigrantes, desenvolvimento de sistemas de vigilância globais – e assim por diante – são imensamente rentáveis para a economia corporativa global, para as multinacionais, os banqueiros transnacionais, investidores e especuladores. As forças populares de base devem estar conscientes da ameaça enfrentam, mas há necessidade de uma mudança fundamental no poder e nas relações de propriedades do capitalismo global, se queremos atingir a paz e a justiça.
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As ideias deste ensaio serão desenvolvidas em detalhe no livro Global Capitalism, Global Crisis, a ser publicado em 2014 pela Cambridge University Press. Este texto baseia-se numa fala à Conferẽncia sobre Poder e Justiça, em Nova York

▶ conversa com Giuseppe Cocco by Radio Comum

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domingo, 8 de setembro de 2013

Toni Negri: América Latina deixou de ser periferia

Toni Negri: América Latina deixou de ser periferia
Dinamismo das lutas sociais na região seria contraponto ao declínio da esquerda europeia e abriria caminho para política dos “comuns”
Entrevista a Verónica Gago e Diego Sztuwark, no Página 12 | Tradução: Hugo Albuquerque | Imagem: MZK,sem título 
Prestes a completar oitenta anos, o pensador italiano Antonio Negri, autor, ao lado de Michael Hardt, da trilogia “Império-Multidão-Commonwealth” (a última parte ainda sem tradução para o português) e de clássicos como “Poder Constituinte: ensaio sobre as alternativas da modernidade”, participou do IX Colóquio Internacional Spinoza, na Universidade Nacional de Córdoba, Argentina. Negri centra o foco de suas análises na transformação radical pela qual passou o capitalismo, a partir dos anos 70, com o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, fato que alterou a forma de produção — agora imaterial e cognitiva — e a maneira como o capital controla o trabalho.
A saída de cena da linha de montagem fabril e a ascensão dos grandes salões de telemarketing — enquanto o sistema financeiro termina por se afirmar como o “elemento que unifica o complexo social, de um modo abstrato, porém efetivo” — é o que interessa a Negri, na sua leitura inovadora de Marx, firmemente assentada no imanentismo de Spinoza — que se volta para a defesa do comunismo no horizonte do capitalismo cognitivo e, por tabela, globalizado. Não existem, dentro do sistema negriano, concessões para o sistema do capital como também não há saída que não seja global para um capitalismo globalizado, no qual os Estados-nações estão postos em função do funcionamento do sistema.
Diante do Império capitalista global, é necessário mais do que indignação e velhas táticas, a compreensão do fenômeno e a produção de novas formas de atuação, baseadas na multidão como classe emergente global e na reapropriação da riqueza comum. É essa preocupação que fez de Negri um observador atento, e visitante recorrente, da América Latina: ele enxerga nas experiências dos movimentos sociais do continente, e sua relativa “chegada ao poder” nos últimos anos, fatos dignos de atenção no que concerne à constituição de uma nova práxis revolucionária global, objeto central de sua obra militante.
Lutas como as do novo sindicalismo e dos sem-terra no Brasil, dos movimentos indígenas na América Andina — sobretudo na Bolívia e Peru — e de movimentos democráticos antineoliberais por todo o continente, sua ascensão na forma dos governos Lula, Kirchner, Chávez ou Morales (entre tantos outros) e o consequente atravessamento que passou a existir entre Estado e movimentos animam o pensamento de Negri — em contraste com a constatação da paralisia da esquerda europeia, burocratizada e elitizada.
É certo que o ciclo de mais de uma década desses governos apenas aprofundou certas contradições já existentes nos seus planos iniciais, sobretudo no que toca ao fortalecimento do extrativismo. Como agir diante disso? Quais ganhos e quais projetos merecem mais atenção? Quais ainda merecem atenção? São questões como estas que Negri buscou responder em uma entrevista ao periódico argentino Pagina 12. (Hugo Albuquerque.)
Há alguns anos, você propôs uma hipótese para entender a situação política na América do Sul: disse que havia um atravessamento do Estado por parte dos movimentos sociais. Desta maneira, o poder constituinte dos movimentos podia desenvolver-se, ainda que de modo conflitivo, no interior do poder constituído. Agora fala em estar “dentro e contra” o Estado. Como você lê atualmente esta relação entre potência popular e Estado?
Eu penso que quando se diz “dentro e contra”, se faz uma afirmação metodológica que sempre deve ser confrontada com as determinações do concreto. Não é que “dentro e contra” signifique sempre o mesmo, mas sim que se trata de adotar uma perspectiva da qual se enxergam as coisas. Tenho a impressão de que tanto do ponto de vista da gestão econômica como da política houve, nos últimos anos, um relativo declive a partir da situação inicial formada na última década, depois de 2001, quando havia um quadro efetivamente revolucionário. Houve um primeiro deslocamento do ponto de vista econômico a partir do governo de Néstor Kirchner: a partir de uma recuperação produtiva, que tomou como base a produção social em um sentido amplo, se produziu uma confrontação com os ditadores dos mercados, sustentada pela experiência de resistência do período anterior. Aquele primeiro momento foi efetivamente muito importante, na medida em que ganharam força os movimentos piqueteiros, as ocupações de fábrica, a organização das vizinhanças como base de ampliação do terreno da produção social, sem fechar essas experiências em uma interpretação puramente ideológica. Este elemento novo da produtividade social insurgente é a força que consegue se fazer representar em um processo institucional efetivo, que tem a nação como espaço definido. Nesse sentido, o poder político nacional consolidou a efetiva necessidade de ter um ponto de referência central para enfrentar os mercados e suas manobras monetárias. Por exemplo, deste ponto de vista, a renegociação do pagamento da dívida e as tratativas com o Clube de Paris têm sido um momento de requalificação da trama institucional da democracia argentina em relação aos esquemas herdados do peronismo tradicional, levando em conta as mutações no tecido social.
E qual sua impressão sobre o que aconteceu depois?
Do ponto de vista econômico, parece que foi dado um impulso ao extrativismo, empurrado pelo agronegócio da soja, consolidando a estrutura de relações com as grandes empresas multinacionais. Seguramente, a disputa com o campo teve a ver com isso. Desse ponto de vista, parece ter havido uma paralisação e uma forte intenção de centralizar o poder por parte do governo. O extrativismo não é apenas um fato econômico. Não se trata somente de discutir que pode ser útil concentrar a produção em certos produtos, mas sim ter em conta que isso funciona como negação efetiva de uma democratização econômica, no sentido de que nega uma produtividade generalizada. Agora, a pergunta é como faz o modelo atual para garantir um regime efetivo de bem-estar na Argentina. Tenho a impressão de que as políticas sociais — tal como acontece, por exemplo, na Venezuela — adotam cada vez mais a aparência de concessões ao povo e, por tabela, cada vez menos parecem ser consequência de uma mobilização geral produtiva, à qual corresponde um welfare efetivo.
E como funciona então o “dentro e contra” o Estado nesse 
Consiste na utilização do Estado, por assim dizer, no interior do espaço global dos mercados, colocando no centro esse problema fundamental da democracia, que não é tanto o problema da liberdade, mas sim o da produção. Quero dizer que é no nível das condições materiais de produção que se desempenham, em essência, o devir democrático e a conquista de novas liberdades.
Como você acredita que outros países da América Latina manejam a relação entre welfare e extrativismo? Pensemos nas experiências importantíssimas de Venezuela e Brasil.
Já mencionei o que se passa na Venezuela. Não sei se podemos chamar de welfare, mas há ali, sem dúvida, uma difusão de serviços às comunidades com significativo salto político e tecnológico com o apoio cubano (médicos, professores etc). Foi algo muito importante, na medida em que houve um constante crescimento no nível de expectativa de vida. Sem dúvida, uma verdadeira democratização da sociedade supõe enfrentar muitas dificuldades. Por exemplo, os problemas que se abateram sobre as missões, ao mesmo tempo em que se forma uma nova burguesia, tão ativa quanto espoliadora. Tenho uma avaliação mais positiva do processo brasileiro, que conta com condições excepcionais do ponto de vista dos recursos naturais e sociais. Há, de fato, uma situação muito afortunada, mas não há dúvida de que a política de Lula foi capaz, efetivamente, de permitir que todos participassem do desenvolvimento, configurando uma sociedade aberta, em termos democráticos e produtivos. Lula desencadeou uma luta de classes contínua, contra uma burguesia e um setor capitalista fortes e com grande capacidade, o que supõe problemas enormes.
O Brasil lhe parece um modelo?
Não sei se essas lutas podem se dar de modo igual em diferentes lugares. Não creio que sua política seja um modelo. Mas, esses dias eu me perguntava sobre a ênfase do discurso oficial argentino a respeito da batalha contra o grupo Clarín. Lula precisou enfrentar o enorme poder da televisão brasileira e não fundou um só diário, preferindo apoiar-se na capacidade de intervir sobre outros setores, sustentado em uma politização das bases por meio dos grandes movimentos, como o MST e os movimentos de favelados que foram extremamente importantes. A situação argentina não parece contar hoje com uma capacidade de recriar movimentos sociais dessa magnitude, ainda que eu tenha muitas dúvidas a esse respeito. De toda a maneira, me parece que o problema da democracia se mostra com toda clareza na América Latina, isto é, que ela já não pode ser pensada como um território periférico, pois em muitos aspectos constitui um cenário central para todos nós.
O extrativismo convive em boa parte da América Latina com uma retórica contrária ao neoliberalismo, mesmo que não haja uma série de práticas sociais que funcionam segundo lógicas de apropriação neoliberais. Como avalia essa defasagem?
A mim parece que quando o Estado se pronuncia contra o neoliberalismo, ele mente. Existe toda uma série de acordos específicos com multinacionais. É um pouco o que aconteceu aqui (na Argentina) no momento da crise do campo. Dentro do marco no qual surgem esses acordos, atuam as empresas nacionais e os empreendimentos cooperativos imersos na lógica capitalista. Esses governos estão contra o neoliberalismo? Talvez seja melhor dizer: estão contra as extremas consequências do neoliberalismo, que são aquelas que buscam anular o welfare. Mas essas são apenas as consequências extremas.
Podemos pensar que é o capital financeiro, enquanto tal, que funciona de um modo parasitário em relação à produção de valor do conjunto da sociedade?
Tenho a impressão que há uma identidade completa entre capital financeiro e extrativismo. Mesmo que os governos progressistas da América do Sul tenham construído novas relações de força em relação aos mercados financeiros, o certo é que esses capitais seguem funcionando a partir da expropriação do valor produzido pela cooperação social. É certo que o capital financeiro continua sendo o elemento que unifica o complexo social, de um modo abstrato, é verdade, porém efetivo. E não se trata de uma intervenção que venha de fora, de um modo imperialista: ao contrário, trata-se de uma intervenção que condiciona a máquina social inteira, e busca prefigurá-la. Por isso é insuficiente toda tentativa de lhe opor meramente uma estrutura de regulação vertical. O problema político que se impõe é, na verdade, como articular contra isso as pluralidades produtivas. Eu não vejo uma proposta diferente.
Não lhe parece também um problema o modo como se fixa uma certa imagem do movimento social, incapaz de dar conta de novos modos mais difusos de organização?
Creio que isso se trata, efetivamente, de um verdadeiro problema. Vejo que, por esses dias, fala-se muito [na Argentina] dos panelaços. Para além do sentido político que possui o movimento — pelo que escuto aqui, é um movimento basicamente de direita –, trata-se de fenômenos que não se expressam no nível institucional, mas no das multidões. Coloca-se a pergunta: como se pode dizer que uma multidão é “boa” ou “má”? Creio ter uma resposta, embora ela seja abstrata: o que distingue uma boa multidão da má é o que chamo de comum. Trata-se de uma hipótese teórica que abarca também uma noção de democracia substancial, não como algo meramente formal. Eu me refiro à democracia enquanto capacidade de organizar um conjunto de relações, e extrair delas uma consciência política. O comunismo não é algo que pode brotar do comum de modo direto. Por isso, há de se criar formas políticas capazes de pôr as singularidades em relação, e de dar-lhes uma forma institucional no decorrer do processo.
Como você pensa essa forma institucional sem que se termine atado ao Estado nacional?
Creio que depois da grande polêmica contra o Estado-nação, e também frente ao poder de inovação capitalista, devemos refletir sobre os termos nos quais se considera a questão hoje, a partir de uma visão de esquerda. Na Europa, o fracasso da esquerda consiste em não ter conseguido ir além do Estado-nação e de não chegar a imaginar uma gestão do poder por fora e para além dele. O defeito da esquerda europeia é ter identificado a própria ideia de governo como uma única instância. Ao identificar a ideia de governo à de Estado nacional, a capacidade de imaginar formas de governo sobre os mercados ficou bloqueada, uma vez que eles possuem poderes que excedem as fronteiras dos países. E então, acontece que os mercados criam por eles mesmos suas instância de governo. Assim, o Banco Central atua como representante da rede europeia: é disso que se trata o comunismo do capital. Na América Latina, as coisas se dão de outro modo, embora também aqui se trate de superar visões que se fecham nos limites dos projetos nacionais-extrativistas. E me parece que a possibilidade de articular uma espacialidade mais ampla passa pela compreensão do papel desempenhado pelo Brasil.
Em que sentido?
Porque o Brasil produz mais do que produzem os demais países da América Latina, e tem uma enorme capacidade de atração no nível internacional, fato que o coloca necessariamente em posição hegemônica. Esse problema se situa fora do conceito de hegemonia que propõe Laclau, referido exclusivamente ao nível nacional, e que exclui a necessidade de levar a sério o nível regional. Creio que teríamos de pensar em um equilíbrio da relação entre espaços nacionais e regionais a partir de uma colaboração real. Porque se os países se fecham na exportação de seus recursos naturais, é muito fácil que passem a competir uns com os outros, ao estilo do Oriente Médio, mas sem xeique.
Você fala de uma série de paradoxos em torno do que chama biocapitalismo e o sujeito atual “homem-máquina” como parte da dinâmica de valorização. De que se trata?
Seria importante voltar a trabalhar sobre as noções de Marx, tais como capital constante e capital variável, além de capital fixo e capital circulante, para ver como essas categorias se modificam a partir da hegemonia do capital financeiro. O paradoxo é que, ao mesmo tempo que as finanças constituem atualmente o próprio poder do capital, a força de trabalho está determinada por novas formas de existência em virtude de sua mobilidade, da incorporação do conhecimento e do fato de que sua cooperação tornou-se autônoma. Neste sentido, pode-se dizer que o trabalho vivo sofreu uma mudança antropológica: o homem-máquina, tomando aqui como exemplo a imagem de Deleuze e Guattari, se apropriou de elementos do que Marx tradicionalmente chamou de capital fixo, isto é, as máquinas. Essa mutação supõe que o capital já não dirige o trabalho de modo direto, mas sim à distância, capturando o trabalho a partir de dispositivos financeiros. Trata-se de um capital que capta o resultado do trabalho em rede. Esta é uma grande diferença, que implica uma série de consequências políticas.
Por exemplo?
Por exemplo, a respeito da questão da propriedade, que concerne cada vez menos à posse imediata de um bem e mais à apropriação de uma série de serviços. A propriedade depende cada vez mais do conjunto do trabalho que se organiza em torno da posse. A composição desse trabalho se dá como uma realidade inteiramente bipolítica, que implica um movimento de subjetivação fundamental. Me parece que a reconstrução de um pensamento revolucionário deve se desenvolver sobre este terreno, no sentido de ligar a análise dessas transformações à utopia: nisso, Maquiavel, Lenin e Gramsci continuam sendo muito atuais.
Você fala também de uma moeda do comum, a que se refere?
Creio que hoje se coloca o problema da reapropriação da riqueza comum, processo que só poderá se dar por meio da moeda do comum, de modo a torná-la o mais extensa possível, aceitando sempre a abstração da relação, já que isso não pode ser revertido. Logo, nesse território, só uma luta comum em nível global é que resolve o problema. Não vejo outras soluções. Pode haver soluções particulares de ruptura, expulsar uma multinacional, repetir operações com a de 2001, não pagar, declarar a insolvência: são momentos de luta, mas não de solução. Esses são problemas que se colocam politicamente de maneira muito forte, por isso este é um momento maquiavélico puro.
de: outras palavras blog

Folha de S.Paulo - Mercado - Austeridade não funciona e só protege os ricos, diz autor - 07/09/2013

Folha de S.Paulo - Mercado - Austeridade não funciona e só protege os ricos, diz autor - 07/09/2013

SOPRO 43 - Janeiro/2011

SOPRO 43 - Janeiro/2011

A revolução acabou.
Começa a idade da revolta
por Marco Belpoliti
(Publicado originalmente no La Stampa em 16 de fevereiro de 2010. Disponível em http://www3.lastampa.it/politica/sezioni/articolo/lstp/380235/ - Tradução de Eduardo Sterzi)

Adeus, revolução? Sim, o seu lugar foi tomado pela revolta. De Clichy-sous-Bois, na periferia parisiense, em 2005, até Atenas em 2008, até o ataque dos estudantes londrinos em 2010, ou até a passeata dos estudantes ganhar as ruas de Roma anteontem, a revolta parece ter tomado o lugar das forças revolucionárias. A revolta não tem projeto, não se projeta no tempo futuro. Como sustentou um dos seus teóricos, o germanista e mitólogo Furio Jesi, morto justo há trinta anos, em Spartakus. Simbologia della rivolta, texto de publicação póstuma, «antes da revolta e depois dela se estendem a terra de ninguém e a duração da vida de cada um, nas quais se perfazem ininterruptas batalhas individuais». Evocando Rimbaud e a Comuna de Paris, Jesi afirmava: «Só na revolta a cidade é sentida como o haut-lieu e ao mesmo tempo como a própria cidade»; na hora da revolta não se está mais sozinho, mas se está no fluxo cambiante do Nós, entidade provisória e lábil, extática e violenta.
Depois do fim das ideologias, depois da queda do Muro de Berlim e do triunfo do pensamento único, no Ocidente como no Oriente, em Nova York como em Xangai, a revolta suspende o tempo histórico e cria o instantâneo; é o triunfo do presente contraposto ao futuro. Não se espera mais o dia da conclusão do longo processo revolucionário. A revolta instaura um tempo extático, escreve Pierandrea Amato, um dos teóricos das novas revoltas metropolitanas, o aqui e agora. Walter Benjamin relata como, no decurso da Comuna de Paris, os revoltosos dispararam contra os relógios, símbolo do tempo escandido pelo progresso, pela disciplina do trabalho. A revolta não prevê, mas vive no repentino; não pressupõe nem mesmo uma classe social que tomará o poder, mas só indivíduos atomizados, que no curso das insurreições espontâneas, não preparadas e contagiosas, se tornam uma força provisória. Se as revoluções cultivavam o sonho do ataque ao Palácio de Inverno, conquista do centro simbólico do poder, a revolta advém de modo molecular com o intento de condicionar materialmente o andamento normal das coisas.
Depois da revolta nada é mais como antes. Para os seus teóricos – Paolo Virno, um dos filósofos italianos hoje mais citados no mundo, mas também os franceses Alain Badiou e Jacques Rancière – a revolta é o análogo da catástrofe, do colapso a que nos habituou o novo capitalismo financeiro, a única resposta possível a uma sociedade que não parece mais ter nenhum fundamento certo, nenhuma teoria com a qual justificar o próprio domínio, a não ser a coerção, o uso da força ou a sedução do consumo. Vivemos na época do desastre, como havia intuído na metade dos anos sessenta Susan Sontag.
A revolta é filha da crise da democracia representativa que no Ocidente, por causas complexas, parece ter perdido a própria função histórica. Os revoltosos, movidos por razões freqüentemente diferentes, mostram, nas periferias urbanas francesas como no centro de Roma, nas ruas de Atenas como nas localidades ao redor de Nápoles, o emergir de uma política que se põe para além do sistema que hoje a representa: são a expressão de uma caótica e espontânea vontade de viver, oposta e simétrica àquela que na Itália domina a cena política maior. Pierandrea Amato, em La rivolta, publicado recentemente, escreve que a revolta é um vento que traz consigo a própria auto-desintegração.
Os garotos que correm com os capacetes e escudos pelas ruas, que sobem nos monumentos, que aparecem e desaparecem nas banlieues, tocando fogo nos automóveis e nas latas de lixo, mostram a existência de um campo de forças que escapa às categorias políticas tradicionais, ao marxismo e ao pós-marxismo tanto quanto às teorias neoliberais. A revolta acontece, do mesmo modo que um evento artístico, uma manifestação momentânea, uma performance. Não se pode representá-la nem de forma política nem espetacular; é um acontecimento extático, mais próximo das formas religiosas, da festa, do que das estruturas da representação política, tais como um partido ou um parlamento: vive, não se representa. A sociedade do espetáculo que dominou nos últimos vinte anos, realizando a profecia de Guy Debord, agora tem diante de si uma série de acontecimentos não capturáveis nas formas do espetáculo midiático.
Aquilo que, em definitivo, a revolta desestrutura é a idéia mesma da identidade política. O Nós aparece e desaparece, e suspende o tempo histórico em favor daquele que os gregos chamavam Kairos: o justo instante, o golpe de vista, aquele em que o atleta perfaz o movimento justo, supera o adversário, cruza a linha de chegada. Devemos preparar-nos para viver num tempo diverso daquele que marcou as vidas dos nossos pais e avós, um tempo que não tem uma única direção, ou uma destinação predeterminada, mas que acontece e ao mesmo tempo colapsa, que se mostra e se subtrai. O Homo seditiosus é o campeão de uma humanidade que sai às ruas hoje, mas também amanhã e depois de amanhã, para realizar «uma arte sem obra».

Sopro -
é um panfleto político-cultural, publicado pela editora Cultura e Barbárie: http://www.culturaebarbarie.org
De periodicidade quinzenal, está na rede desde janeiro de 2009.
Editores: Alexandre Nodari e Flávia Cera.

sábado, 7 de setembro de 2013

IQUID DEMOCRACY, OCCUPY MOVEMENT & COMMUNITY CURRENCY

http://urbanohumano.org/social-innovation/liquid-democracy-occupy-movement-community-currency/http://urbanohumano.org/social-innovation/liquid-democracy-occupy-movement-community-currency/

Folha de S.Paulo - Mercado - Austeridade não funciona e só protege os ricos, diz autor - 07/09/2013

Folha de S.Paulo - Mercado - Austeridade não funciona e só protege os ricos, diz autor - 07/09/2013

A austeridade é uma ideologia fracassada que é esgrimida pelos ricos para repassar o custo das crises para os pobres. Historicamente tem provocado desemprego, conflitos sociais, guerras.
Esse é o cerne de "Austerity, the History of a Dangerous Idea" [Austeridade, a história de uma ideia perigosa], de Mark Blyth. Professor de política econômica internacional na Universidade Brown, ele é doutor em ciência política pela Universidade Columbia, as duas nos EUA.
Filho de açougueiro, Blyth nasceu em 1967, na Escócia. Houve tempo em que ia para a escola com furos nos sapatos. O Estado do bem-estar social europeu lhe proporcionou ensino de qualidade e ele ascendeu socialmente --hoje, integra instituições de alto prestígio.
Agora, esse arcabouço que viabilizou seu avanço está colocado em xeque pelas políticas de austeridade que se estabelecem por todo lugar. O acadêmico teme que as próximas gerações não tenham as chances que ele teve e que o futuro esteja garantido apenas aos já privilegiados. Por isso decidiu escrever o livro, conta no prefácio.
Dedicado ao estudo da política das ideias, Blyth navega pela história, pela filosofia, pela economia. Vasculha as origens da ideologia da austeridade nos escritos de John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776) e Adam Smith (1723-1790), feitos num tempo em que a noção de deficit público estava associada a gastos de reis e suas cortes.
Mesmo assim, lembra que no clássico "A Riqueza das Nações" Smith reconhece que o mercado não pode existir sem o Estado --essencial para a defesa externa, segurança da propriedade privada, estabelecimento de um sistema judiciário, policial, educacional etc.
DEPRESSÕES
Na análise dos séculos 20 e 21, Blyth ressalta que as lições dos erros cometidos em torno da Grande Depressão advinda do crash de 1929 foram esquecidas. Didaticamente, explora os casos da Alemanha, do Japão, dos EUA e da França após a Primeira Guerra Mundial. Em todas essas situações, as políticas austeras fracassaram em recuperar as economias, levando os países ao desastre.
Nos EUA, as medidas de aperto e de corte nos gastos públicos fizeram o desemprego saltar de 8%, em 1930, para 23%, em 1932. No Japão, a austeridade criou a pior depressão da sua história, fez eclodir assassinatos políticos e deu poder à elite que encaminhou o país à guerra.
Na Alemanha, o autor descreve as sucessivas políticas de arrocho que, com o acréscimo de erros dos social-democratas de então, ajudaram a trazer Hitler ao comando do país. Na França, modelo semelhante também provocou uma hecatombe, pavimentando o caminho para a perda de soberania nacional.
Blyth mostra como o Banco da França atuava em defesa dos interesses das 200 famílias mais ricas do país, beneficiando rentistas e prejudicando a maioria da população.
Entre 1932 e 1936, os gastos governamentais foram cortados em 20% (derrubando despesas militares), a produção industrial encolheu e os salários afundaram.
"As elites francesas estavam tão preocupadas com a inflação e tão determinadas a manter o valor do franco que paralisaram a capacidade militar da França de se mobilizar contra Hitler. A austeridade não apenas falhou --ela ajudou a explodir o mundo. Essa é a definição de uma ideia muito perigosa", afirma o autor.
Blyth vê semelhanças entre a França dos anos 1920 e a crise atual. "A alternativa a cortar é taxar", defende. Para ele, a crise foi gerada pelo setor privado e está sendo paga pelo setor público.
"Os bancos prometeram crescimento, entregaram perdas, passaram o custo para o Estado e depois culparam o Estado pelo deficit", ataca. "Os de baixo estão ouvindo o discurso de apertar os seus cintos feito por aqueles que estão vestindo calças muito largas", diz.
Na sua visão, há risco de as políticas de austeridade, como no passado, produzirem crises políticas e sociais. Desconstruindo a cantilena oficial das "crises soberanas", o professor argumenta que talvez os bancos não devessem ter sido resgatados pelos governos. Compara casos como o da Irlanda e da Islândia.
Em linguagem aguda e clara, o livro ajuda a entender o momento para além dos números.
"Austerity, the History of a Dangerous Idea"
AUTOR Mark Blyth
EDITORA Oxford University Press

Pots, Pans and Other Solutions_Islandia revolution

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Crianças criam mapas de comunidade que não vem no Google Maps

Crianças criam mapas de comunidade que não vem no Google Maps

(1) Rodrigo Guéron para Marilena Chauí

(1) Rodrigo Guéron
Marilena Chauí: quando a história da filosofia é usada contra o pensamento.
Rodrigo Guéron

Tenho notado que Marilena Chauí, cujo ótimo curso recente sobre “Espinosa e a Política” na PUC assisti de caneta e caderninho em punho, há algum tempo tem usado a história da filosofia contra a filosofia e o pensamento em geral.
Estive, estes dias, reunindo anotações para responder a forma como ela desautoriza o uso de alguns conceitos (como o conceito de “multidão” originalmente de Espinosa, mas redefinido por Antonio Negri), ou a articulação e aproximação entre conceitos (como “trabalho vivo” em Marx e “produção de subjetividade” em Deleuze e Guattari) às vezes em nome de uma fidelidade ao sentido puro e imaculado que estes conceitos teriam nos filósofos que os pensaram, às vezes em nome de uma fidelidade historicista à história da filosofia que limitaria a possibilidade de aproximação dos conceitos e seus sentidos numa divisão lógica de contextos e classificações históricas fechadas, e linhagens filosóficas determinadas.
Além disso, a maneira reativa como Chauí tem se referido aos movimentos que tomaram as ruas do país a partir de junho, nos dá a impressão que a professora despreza os acontecimentos nas suas singularidades o que, convenhamos, não é nada materialista. Marilena parece não suportar o incompreensível, o que não é absolutamente enquadrável pelos seus aparatos conceituais prontos, ou seja, o que ela evita é exatamente um dos princípios, um dos agentes provocadores do pensamento: aquilo que nos tira do nosso lugar habitual, do nosso conforto intelectual, que é também físico, demandando novas criações, sejam conceituais, sejam artísticas.
Não é possível reduzir os acontecimentos aos esquemas de pensamento previamente dados. Na filosofia, e antes na política e na vida de uma maneira geral, são os conceitos que devem dizer os acontecimentos, ou seja, os conceitos devem ser criados e recriados a partir dos acontecimentos. E, uma vez criados, os conceitos tornam-se espécies curiosas de ferramentas que materialmente se constituem mais ou menos na forma como Simondon compreendia a matéria: não “matéria e forma”, mas sim “matéria e força”. Ao que eu acrescentaria: os conceitos são ferramentas que se alteram – tornam-se outras – no seu uso, vivas e vitais como os comandos de games que o cineasta David Cronemberg nos mostra no seu “Existenz”.
Pois é, como eu ia dizendo, eu estava aqui reunindo anotações para abrir este bom debate, tentando mostrar que o valor do estudo da história de filosofia é que ela nos permite um “pensar com”, como pudemos fazer nas aulas da professora quando ela explicava de maneira esplêndida os sentidos e os caminhos dos pensamentos de Espinosa. Mas a história da filosofia não pode ser uma espécie de espada sobre o pensamento, nem um distintivo de autoridade acadêmica contra a criação de sentido.
Tudo isso era o que eu iria desenvolver em meu texto, passando pela crítica à maneira determinista como acho que Chauí usa a teoria marxista de classe, quase como um transcendente, uma “lei da história” que enquadra as dimensões políticas dos conflitos e da inventividade da produção social de fora para dentro. E aqui eu apontaria os problemas trazidos pela desconsideração que quase todo o marxismo tem pelo ponto mais fundamental e radicalmente materialista do pensamento de Marx: o conceito de “trabalho vivo”. É neste momento que o barbudo identifica o homem como “parte da natureza como força produtiva”, afirmando a nossa dimensão autopoiética: auto inventiva e auto produtiva. Não compreender as possibilidades desta reflexão de Marx, não compreendendo que o “trabalho” nesse caso passa a ser a própria condição do ser como criador e reinventor de si e do mundo – tudo o que se produz, o que se faz, o que se inventa, é trabalho – é uma limitação dos marxistas que faz com que eles reduzam a compreensão da política a uma disputa pelo Estado. Marx nos mostra, no entanto, uma dimensão política que existe potencial e imediatamente no trabalho, na sua inventividade quando ele é livre, isto é, quando ele consegue escapar às maneiras como o capitalismo organiza a produção e, consequentemente, define as relações sociais e impõe formas de vida. É próprio do capital, no entanto, querer dizer o que é e o que não é trabalho e produção, mudando suas axiomáticas de acordo com suas conveniências. Assim samba, rock-punk, ou funk podem ser coisas de malandros, vagabundos e bandidos, mas, contas refeitas, podem virar um ótimo ativo da indústria musical. No final das contas (literalmente) o capital gosta de dizer que toda a produção só existe graças a ele, tomando-se como um “pressuposto natural e divino” de todo o processo de reinvenção do mundo e da vida.
Há, no entanto, um desejo produtivo, gerador e gerado pela abundância dos meios de produção, tecnologias e bens do capitalismo, que nos impulsiona para muito além da forma mercadoria e de suas mensurações de valor quantificadoras e redutoras. O “trabalho vivo” é a própria operação da vida, a sua ação produtiva que se dá como uma mobilização social e que é por isso política, e que tem a sua dimensão anticapitalista quando produz formas de vida múltiplas para além das limitadas formas de vida dos “padrões de mercado”. E aqui sim “trabalho vivo” pode ser articulado com “produção de subjetividade”, para além de qualquer cânone filosófico. O erro recorrente nas análises políticas de Marilena Chauí e da maioria dos marxistas brasileiros (embora Chauí esteja num nível muito mais alto do que uma vulgata marxista que parece que simplesmente parou de estudar e pensar) é o de não entender a dimensão política do trabalho vivo – da produção de subjetividade – nas últimas décadas, e de como o capitalismo se reestruturou, como forma de poder e de extração de mais valia, partir destas; ou seja, o próprio processo do neoliberalismo. Ao excluir de suas análises políticas toda esta vitalidade, os marxistas são sistematicamente derrotados pelo capitalismo que se apresenta falaciosamente como a única forma de organização produtiva capaz de responder aos desejos. O capitalismo aprendeu muito melhor que as esquerdas que toda a operação produtiva pode ser considerado trabalho e disseminou as formas de exploração a partir das resistências e das linhas de fuga construídas a ele mesmo, como se tivesse entendido de acordo com seus interesses a tal sociedade onde o homem poderia “pescar de manhã e ler à tarde” descrita por Marx, descobrindo que daí poderia extrair mais valia à vontade.
Sim, eu sei, este seria o trecho do texto mais difícil e que mereceria mais desenvolvimento. Mas isso é o que eu iria tentar fazer até que a professora fez uma fala na academia da PM chamando os black blocs de fascistas. Foi algo que me deixou tão triste, tão decepcionado e perplexo, que comecei a achar que qualquer debate mais aprofundado, neste caso, seria inútil. Senti, de fato, uma sensação de impotência, como se tivesse levado uma rasteira de alguém que sempre tive, politicamente falando, como uma aliada e uma referência: uma “companheira”, com o perdão do jargão. E é por isso que meu texto a partir daqui muda de tom e torna-se quase outro.
Na verdade, já em meio às suas ótimas aulas, algumas das vezes que a Professora Marilena saia do esclarecimento dos pensamentos de Espinosa para comentar algum fato recente, todo o seu rigor histórico desaparecia. Ela chegou a falar, por exemplo, que o fenômeno eleitoral do comediante Beppe Grillo na Itália não tinha importância nenhuma e era a mesma coisa que o caso de Tiririca no Brasil. Demonstrou assim um desconhecimento completo do “movimento cinco estrelas” que Beppe liderou e que, com todas as contradições que pode ter, levou ao parlamento italiano dezenas de lideranças de novos movimentos sociais, arrombando a porta dos esquemas de poder que fecham cada vez mais as estruturas da representação política para a democracia.
Tudo bem, todos nós professores falamos de vez em quando as nossas besteiras em meio as nossas aulas: não é possível estar bem informado sobre tudo o tempo todo. Mas ao acusar os “blocs” de fascistas na academia da PM a professora Marilena chegou não só a um ponto de irresponsabilidade política como de cumplicidade com a violência sistemática da PM do Rio, não só na repressão às manifestações, como no trato da população em geral.
Eu deveria começar aqui todo um grande trecho explicando quem são os blocs e esclarecendo que as manifestações e os movimentos em curso hoje no Rio vão muito além desse grupo político. Poderia dizer que muitos dos militantes blocs são da periferia, que o máximo de violência a que chegam é quebrar as vidraças de símbolos da opressão, como os bancos, virar algumas lixeiras e coisas do tipo. Deveria contar para a professora Marilena Chauí toda a estratégia de infiltração dos policiais militares nas manifestações do Rio, que foram muitas vezes policiais infiltrados que lançaram molotovs, que pessoas foram feridas com balas de borracha, manifestantes imobilizados no chão tomaram choques elétricos, que bombas de gás foram lançadas dentro de bares e restaurantes e até de hospitais. Poderia contar para ela que os blocs protegeram, numa luta defensiva, os manifestantes diante da repressão e permitiram, com sua resistência, que eles se retirassem com alguma segurança na manifestação dos 300 mil onde a ação da polícia quase provocou uma tragédia. Deveria lembrar à professora que o governo Cabral criou por decreto uma comissão inconstitucional para investigar as pessoas e que muitos cidadãos estão sendo processados no Rio de Janeiro apenas por participarem de manifestações. E sobre a polêmica das máscaras, bastaria eu dizer uma coisa: os black blocs andam mascarados, entre outros motivos, porque a polícia do Rio tortura e mata; é simples assim.
Mas como uma tão rigorosa guardiã do cânone da história da filosofia não se deu a um mínimo rigor de pesquisar tudo isso? Marilena Chauí de fato não sabia de nada quando aceitou dar uma palestra na PM e dizer nesta que os blocs são fascistas? Ela desconhece o que está em sendo colocado em questão pelos movimentos onde os blocs aparecem de forma importante? Não sabe que vivemos numa cidade, e num estado, totalmente privatizados pelo poder que deveria ser público, onde uma política arbitrária e violenta de remoções se proliferou, onde a especulação imobiliária aumentou o preço dos imóveis em até quinhentos por cento, onde um empresário, um grupo empresarial e um cartel dominam os ônibus, os metrôs, os trens e as barcas, recebem licenças, e até dinheiro público, para construir prédios imensos sem qualquer critério, controlando e elitizando até mesmo um dos maiores símbolos da cultura popular da cidade: o seu estádio de futebol, o Maracanã? Ela não sabe quanto ganham os professores da cidade e, pior, os do estado, em greve e mobilizados nas ruas no exato momento em que ela proferia sua palestra na PM?
A professora Marilena Chauí deve desculpas aos cidadãos do Rio de Janeiro, ela precisa retirar o que disse visto que isso pode custar ataques ainda maiores aos manifestantes em geral, inclusive aos corajosos e criativos meninos dos black blocs. Eu teria até críticas a fazer a eles eventualmente. Eu me preocupo, por exemplo, que os movimentos de uma forma geral não se isolem e não caiam numa lógica de auto-martirização. Não digo que isso esteja necessariamente acontecendo, mas às vezes acho que se insinua esta tendência. Mas a fala da Professora Marilena Chauí fez com que eu me sentisse impelido a escrever em defesa dos blocs e dos movimentos que tem acontecido no Rio sobre os quais, insisto, vão bem além desse original grupo político.
Se a professora não quer nos prestar solidariedade porque nossos atos não seguem as “leis” que imagina que a história deveria ter, se ela insiste em se apresentar como a guardiã da doutrina espinosista e da doutrina marxista, esta última, aliás, negada pelo historicismo que tem professado, que nos deixe lutar e pensar em paz, isto é, sem medo.
Nem da PM, nem da USP.