domingo, 9 de novembro de 2008

WE WON'T PAY FOR YOUR CRISIS!

O movimento é italiano se chama onda anômala e seu slogan:


"Noi la crisi non la paghiamo", "O bloccate voi, o blocchiamo noi"

WE WON'T PAY FOR YOUR CRISIS!

For a number of weeks in Italy the entire world of the education system - from universities to elementary schools - has been uprising. Marches, occupations, demonstrations, pickets and blockages of the metropolitan flow have replaced the dreary rhythm of school timetables.The protests are against the new budget implemented by Berlusconi's government last summer, which seriously cuts down on public funding of education. This is the outcome of a 10 year period of crisis of the education system in Italy, when Berlusconi's Right and Prodi's Left alike treated education as a cost rather than an investment.The closure of many universities, precariousness and the dismissal of thousands of new teachers and researchers: Berlusconi's government wants the university to pay to save itself from the crisis of banks and private corporations.This movement gives us a chance to open up a new Europe-wide discussion on education today. From the struggles in Greece to the anti-CPE protests in France, the movement of the Anomalous Wave sweeps through Europe. What this means is that education and the Bologna process must start afresh on the basis of these struggles, turning education into the field of their circulation and connection, and Europe into its political domain of growth and enlargement.Today we are here in support of this large and strong movement of students, researchers and teachers - the so-called Anomalous Wave.Today we are here because the 7th of November is the day of action in Italy.Today we are here and another communicative action is running in Barcelona.Today we are here to multiply the Anomalous Waves and get ready for the Sea Storm.Today we are here building up the counter-Bologna process, that is to say, the European space of the free circulation of knowledge, of the social cooperation, of the self-education, of the autonomy of the movements.Today we are here because the European students and precarious are still rioting.Today we are here to say we won't pay for your crisis!European Anomalous Wave>> immagini dell`azione: http://www.uniriot.org/index.php










sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Interstícios urbanos

Cedi uma entrevista a este artigo publicado em
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=38&id=464


Reportagem Interstícios urbanos
Por Marina Mezzacappa
Colaboração: Enio Rodrigo

A noção de vazio é inerente à atividade do arquiteto, profissional que trabalha justamente a ocupação construtiva desses espaços vagos. Na concepção de projetos arquitetônicos, além de pensar a materialidade das construções, ele se debruça também sobre os hiatos que em meio a ela se fazem necessários. “O arquiteto compõe o espaço como uma música, com sons cheios e silêncios vazios. Esses dois elementos têm que dialogar”, compara a arquiteta alemã Anja Pratschke, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos. Nesse sentido, o vazio não é um área sem definição, mas sim a contrapartida do cheio. “O vazio que os arquitetos pensaram e pensam é o vazio típico do que chamamos ‘interior' e sempre foi um espaço completo, com uma finalidade, uma função, um ‘vazio preparado', arquitetado para uma ocupação”, explica Fernando Freitas Fuão, docente da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Alguns vazios, contudo, são pensados para se manterem como tal. No seu processo de criação, podem ter diversos sentidos. “Os pontos de partida para esses vazios podem ser filosóficos, históricos, de compreensão do espaço”, elenca Pratschke. Ela cita dois exemplos, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Museu Judaico de Berlim. No caso brasileiro, o terreno que abrigava o mirante do belvedere do Parque Trianon foi doado para a construção do Masp com a condição de que a vista que ele proporcionava fosse preservada. Assim, a arquiteta Lina Bo Bardi desenhou, em 1958, o vão livre de 74 metros que deu origem a uma praça coberta entre os andares superiores e inferiores do museu. Hoje, quarenta anos após sua inauguração, as transformações da cidade encobriram parte da vista original, mas o espaço adquiriu novos significados. “É como um respiro. Você tem todo o movimento na avenida Paulista contrapondo-se a esse vão que está vazio”, reflete Pratschke.
No caso do Museu Judaico de Berlim, projetado por Daniel Libeskind, os vazios foram estruturados para representar a ausência dos judeus, expurgados da cidade por ocasião do Holocausto. “Ele deixa o vazio para te convidar a refletir sobre uma coisa que não esta resolvida”, explica a pesquisadora.
Com a modernidade, novos significados foram atribuídos ao vazio. O urbanismo modernista troca os espaços confinados pelos grandes espaços livres e grandes avenidas, propondo cidades abertas. Surge a idéia do espaço público, aberto, como o lugar do grande vazio, mas também do encontro, do evento. Clara Luiza Miranda, arquiteta da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), cita a Praça dos Três Poderes, em Brasília, como um dos ícones desse movimento. “É fato que a multidão esperada para a praça ainda não teve seu tempo”, lamenta. Em contraponto, a praça contemporânea preocupa-se em recuperar o sentido de urbanidade, resgatando os espaços das praças histórias e seu sentido de pertencimento.
Fissuras nas cidades
Também, na concepção das cidades, a questão do vazio se impõe enquanto dialética entre espaços construídos e espaços não-construídos (ou desconstruídos, esvaziados). “A relação entre cheios e vazios em uma cidade se iguala e se faz tão importante quanto em uma obra de arte, quando quer o artista fazê-la compreensível e assimilável”, compara Dias. Mas, atualmente, essa contraposição fica dificultada, já que as cidades transformaram-se em massas excessivamente construídas e são escassas as áreas não edificadas, livres de concreto e ferro. “Desde a metrópole, a multidão e, agora, a mega-cidade, o vazio se torna uma matéria rara, que incorpora não apenas o sentido físico e econômico, mas de lugar de memória, existencial, estético, essencial ao repouso, à desaceleração, à síncope do tempo”, avalia Miranda.
À medida que os cidadãos só conseguem ou podem se relacionar com espaços construídos, os espaços públicos são entregues à decadência e à marginalidade e reafirma-se a cidade como uma soma de espaços privados, segmentados e limitados por paredes, alambrados e cercas elétricas. “O medo do espaço amplo externo (agorafobia) burguês se dirige, no caso do homem contemporâneo, ao espaço vazio, aos interstícios, instalando, então, espaços contenedores controlados por uma variedade de dispositivos de segurança”, diz a arquiteta da Ufes. A cidadania é reduzida à capacidade de possuir um imóvel.
A lógica de empreendedorismo e utilitarismo impede que, ao invés da construção de edifícios, cultive-se um pomar, uma horta ou um jardim nos locais ainda vagos. “Muitas prefeituras sobretaxam terrenos desocupados, como um modo de ‘punir' aqueles que preferem criar capim a construir algo”, lembra Rocha. Como bem coloca o educador e escritor Rubem Alves no artigo O vazio, meio urbano e meio rural se contrapõe nesse ponto. “A roça é o lugar onde o vazio é grande. A cidade é o lugar onde o vazio é pequeno. Na cidade a gente olha para fora e os olhos logo batem num edifício, num muro, nos automóveis. Na cidade a gente vê curto. Na roça, porque o vazio é grande, os olhos vêem longe, muito longe”, escreve.
Nesse sentido, o vazio também tem o papel de “fazer ver” a própria arquitetura. “O vazio torna visível o construído. Desta forma o ser produz o útil, mas é o não-ser que o torna eficaz”, explica Dorival Rossi, professor do curso de design da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Para Paula Landim, do Departamento de Desenho Industrial da mesma universidade, contudo, é comum encontrar ótimos projetos de arquitetura, que, “espremidos” em um terreno, perdem seu destaque. “É o que eu costumo chamar de peru num pires”, brinca. A mesma lógica das construções ela aplica aos objetos, sua área de estudo atual. “Ao colocar um vaso ou uma cadeira em um ambiente atulhado de outras coisas, atulhado de informações, você não tem condições de enxergar e apreciar”, pontua.
Vazios urbanos
Ainda sob o prisma do urbanismo, existem os chamados vazios urbanos, lugares abandonados, esquecidos, destituídos, despovoados, desabitados, ociosos, obsoletos. São galpões, portos, edifícios antigos em ruínas, fábricas, entre outras edificações e espaços, que apresentam uma dupla ausência: de ocupação material/funcional e de interesses/significados sociais. “É o vazio como o resultado daquilo que se esgotou. O esgotamento do sentido, da essência”, sintetiza Freitas Fuão. Segundo ele, esses espaços, que muitas vezes não conseguimos determinar a quem pertencem, incomodam principalmente por sua improdutividade.
O surgimento desses vazios remete a processos políticos, econômicos e sociais. Algumas áreas valorizaram-se historicamente em detrimento de outras, que são progressivamente abandonadas. “Se examinarmos o próprio movimento que esvaziou os centros das cidades da presença de classes mais abastadas, perceberemos que, toda vez que o diminuto mercado de classe média em nosso país abre uma nova frente de expansão, esvazia a anterior”, lembra Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em Um novo lugar para o velho centro. “Desvalorizados pela lógica do mercado e pelo imaginário de nossa cultura urbana, esses espaços semi-abandonados abrigam hoje o que ‘sobrou' de sua centralidade anterior – quem não teve renda para acompanhar os novos lugares ‘em voga', quem sobrevive da própria condição de abandono”, prossegue.
Inaproveitados, esses espaços não são apenas uma questão social, de mau uso do capital investido e de desprezo do patrimônio construído, mas também um problema ambiental, como aponta Demetre Anastassakis, arquiteto e ex-presidente nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil no texto Sustentabilidade das cidades. “Deixam de usar uma infra-estrutura projetada e calculada para sua plena utilização, fazendo a cidade buscar novos terrenos, novos territórios para crescer, territórios para urbanizar”, detalha. Paradoxalmente, cinco milhões de casas e apartamentos estão vagos nas áreas urbanas brasileiras, como apontam dados da Fundação João Pinheiro, colhidos em 2005.
Apesar de denominados “vazios”, esses vazios urbanos também têm vida, “reivindicam” alguma coisa, ainda que muitos não se dêem conta. “Esses vazios do abandono, não são vazios, não são sem sentido essas arquiteturas, pois esses objetos falam, gritam, apontam, reenviam para um outro tipo de vazio”, avalia Freitas Fuão. Assim, como lembra Rossi, o vazio pode ser entendido com virtus , como potência “algo que ainda não existe no plano material, que se originou e que significa energia de fazer”.
Por essa perspectiva, esses espaços também carregam em si a expectativa do novo. “A crise traz a angústia da ausência clara do uso atual, mas também a esperança de algo novo, indeterminado e promissor”, reflete Carlos Leite, professor do programa de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie em artigo publicado na ComCiência.
Ao menos parte desses espaços pode constituir a base para projetos urbanos estratégicos de regeneração de cidades ou periferias. Contudo, essa reapropriação dos vazios não é simples e gera desdobramentos. Revitalizados, esses espaços acabam por expulsar as atividades e territórios populares que nele se estabeleceram, pressionando ainda mais a precarização da cidade. “Cada porção do centro ‘enobrecida' é mais uma favela ou pedaço de periferia precária que se forma”, finaliza Rolnik.

quarta-feira, 5 de março de 2008

MILITÂNCIA HOJE

A miltância hoje não é distribuir panfleto, colar cartaz, dizer palavras de ordem. Militar é investigar. Fazer pesquisa para entender esses desdobramentos do trabalho. Identificar a capacidade produtiva do trabalho para fazer militância. É um trabalho cultural. (...)A globalização não tirou a possibilidade de transformar o mundo, mas diluiu sobre toda a face da terra essa possibilidade. Há várias cargas políticas hoje no mundo prontas para explodirem. Temos de reconhecê-las para guiá-las. Hoje, portanto, o grande problema é se inserir no mercado mundial buscando localizar essas questões. Não se trata de auto-flagelamento, mas estar sempre pronto para uma tentativa de renovação. Antonio Negri


Antenas ligadas,,, acontecimentos não são banais, a análise não pode ser apressada.

MADRES DE PLAZA DE MAYO CONTRA URIBE

Carta abierta al Presidente de Colombia, Álvaro Uribe
MADRES DE PLAZA DE MAYO


En las últimas horas, ha mostrado Ud. la verdadera cara de su gobierno: el terrorismo de Estado.
Las voces del mundo democrático se levantan por doquier, repudiando el asesinato del dirigente de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, Raúl Reyes, y veinte hombres y mujeres de esa organización político militar, que se encontraban durmiendo en la frontera con Ecuador.
Ha asesinado Ud. el proyecto de paz que se estaba gestando.
Ha asesinado Ud. los compromisos de países regionales de la OEA. Ha violado Ud. las normas internacionales y los pedidos de los países latinoamericanos y del mundo para que se reconozca a las FARC como fuerza beligerante y se trate el conflicto en ese marco.
Entre estos hechos aberrantes, también ha violado el territorio ecuatoriano. Y ha convertido a Colombia en la pista de lanzamiento de las bases militares de Estados Unidos y sus personeros del narcotráfico, poniendo en marcha el "Plan Colombia".
Desde la República Argentina, desde nuestros 31 años de lucha, Familiares y Madres de víctimas del terrorismo de Estado, condenamos su accionar, sosteniendo nuestra voluntad y la necesidad de encontrar un camino hacia la paz en Colombia y hacia la liberación económica y social de nuestra América.

República Argentina
Buenos Aires, 4 de marzo de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008

HALTE AU MASSACRE A GAZA !


Judeus franceses fazem apelo contra massacre em Gaza
Em meio ao horror dos atentados de Israel contra a população de Gaza, a União Judia Francesa pela Paz (UJFP) lança uma advertência e um apelo para que se detenha a mão dos carniceiros. Sua petição ao governo francês, com apenas 278 palavras, tem a força das causas justas.
HALTE AU MASSACRE A GAZA ! NE RIEN FAIRE, C’EST ETRE COMPLICE !

Veja a íntegra do manifesto da UJFP .
''O governo israelense prepara abertamente a opinião pública mundial para a invasão de Gaza. Essa invasão já começou, com mais de 60 civis mortos somente no dia 1º de março.
Há meses a faixa de Gaza, decretada 'entidade hostil', é submetida a um ignóbil bloqueio. O governo israelense se arroga o direito de esfomear um milhão e meio de pessoas. Falta tudo em Gaza: comida, água, eletricidade, medicamentos, cadernos...
Um passo suplementar vem de ser dado. Os mortos, que o ocupante denomina pudicamente 'terroristas', vítimas de 'assassinatos seletivos' ou 'danos colaterais', são cidadãos comuns, civis, que só pedem para viver normalmente.
Por seu silêncio, por sua recusa em condenar os autores desses crimes contra a humanidade, a comunidade internacional é cúmplice.
Nós solicitamos que o governo francês:
. Condene com a mais completa clareza os crimes cometidos em Gaza pelo exército israelense, assim como o cerco da faixa de Gaza por parte do governo de Israel.
. Faça com que o Estado de Israel seja condenado pelo Conselho de Segurança da ONU, pelos crimes cometidos em Gaza, e exija a imediata cessação das violências.
. Pressione a União Européia para que esta condene imediatamente essa inaceitável violência e estabeleça contra Israel as sanções que se impõem: suspensão de toda cooperação econômica, política e cultural.
. Deixe de fazer comparações entre o ocupante e suas vítimas e proponha o bloqueio contra Israel, pelo tempo em que perdurar o bloqueio de Gaza.
. Ponha fim à impunidade dos dirigentes israelenses culpados de crimes de guerra e exija a aplicação de todas as leis internacionais violadas por Israel.
Domingo, 2 de março de 2008Birô Nacional da União Judia Francesa pela Paz.''


Quem é e o que quer a UJFP

A União Judia Francesa pela Paz foi fundada em 1994, como seção parisiense, e mais tarde francesa, da União Judia Internacional pela Paz. Conta entre seus membros com Raymond Aubrac, 93 anos, talvez o mais célebre dos remanescentes da Resistência Francesa ao nazismo, marido da legendária Raymond Aubrac, morta em 2007.
A carta da entidade proclama que ''o conflito entre israelenses e palestinos só pode ser resolvido com o fim da dominação de um povo por outro, pelo exercício do direito do povo palestino à autodeterminação, inclusive o direito de criar seu próprio Estado independente''. Defende também que ''toda forma estatal ulterior que os povos da região possam estabelecer dependerá da evolução das relações entre eles, notadamente entre palestinos e israelenses'', agregando que ''esperamos que elas evoluam no sentido da paz, da cooperação mútua e da justiça social''.
O atual presidente da UJFP, Richard Wagman, define-se pessoalmente como anti-sionista, explicando que ''os anti-sionistas são aqueles que acreditam que o sionismo está errado enquanto ideologia, e se opõem a ele''. A UJFP é hostilizada pelas organizações judaicas que dão sustentação às práticas do Estado israelense, e seus membros foram acusados pelo escritor Marek Halter de ''exibirem suas estrelas amarelas para condenarem Israel''. Entretanto, seu apelo possui a energia que vem das convicções solidárias e humanistas.
Clique aqui para visitar o site da UJFP (em francês): http://www.ujfp.org/

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

SOLIDARIZE-SE COM GAZA

O jogador Mohamed Aboutrika, da seleção de futebol do Egito, no momento em que Comemorava o gol que acabava de marcar em jogo da Copa de Nações, África 2008, disputado em Ghana, dia 27/1/2008. Na camiseta que Aboutrika mostra lia-se "SOLIDARIZE-SE COM GAZA"

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Gaza: waiting for the invasion


Políticas da restauração. Novas direitas e velha esquerda, ou como reciclar o fundo do pote* Judith Revel, nov.2007
(...) Então, o que fazer? Infelizmente, as seduções do poder não são novas. Lastimar as sereias sarkozyanas não fará nascer um novo Ulisses. Em vez disto, indagar o que significa hoje ser de esquerda parece não só obrigatório, mas também absolutamente necessário.
Uma esquerda que seja capaz de impor a Europa dos movimentos contra o simulacro da representação política, de combater a insegurança biopolítica e a precarização da vida, em vez de combater o choque de civilizações, de lutar pelo direito à felicidade, em vez de pregar a tolerância zero, de buscar as diferenças no comum, em vez de a República do cidadão ordinário, conformista, 'médio', sem cara [1].
Uma esquerda capaz de retomar para si o acesso aos saberes e à formação (atualmente entregue de presente à empresa privada, em cenário incrivelmente orwelliano), a renda mínima universal (e não o assistencialismo – além do mais sempre insuficiente – das novas leis para os pobres), de redefinir uma cidadania plena, desterritorializada e sem restrições, em vez da xenofobia e dos nacionalismos. Uma esquerda capaz de pensar de outro modo o trabalho de afirmar a potência da cooperação social e da inteligência comum.
Então, o que fazer? Toda a esquerda, contra os fantasmas daquela restauração pós-mitterandiana devorada pelo novo imperadorzinho. Depois de Napoleão III vem a Comuna de Paris. Façamos comunas, organizemos uma nova Comuna.”
NOTA
[1] No orig. “cittadino qualunquista”. [Arnaldo Carrilho: "Qualunquista" vem de "qualunquismo", movimento italiano dos anos-50 que, à imitacao do "poujadisme" francês, queria representar o "homem comum", ordinário ("qualunque"). Foi uma das frestas remanescentes do neo-fascismo, sempre latente na Italia e já vencedor, com Berlusconi. Faltou-lhe apoios dos capitalistas e da DC. Hoje, o neo-capitalismo tomou conta de tudo. É o novo fascismo.] O melhor uso do adjetivo qualunquista (it.) que encontrei na Internet, pra me ajudar a traduzir, está numa frase de Pasolini, que cabe aqui lindamente: “Lei non ha capito niente perché è un uomo medio. Un uomo medio è un monstro, un pericoloso delinquente, conformista, razzista, schiavista, qualunquista”.
*
O texto original está em http://www.posseweb.net/spip.php?article16 tradução do excerto Caia Fitipaldi e Barbara Szaniecki na lista de discussão Universidade Nômade

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Temple

Biblioteca de Maria Helena Vieira


“Na biblioteca o autor é obrigado a despertar daquele sonho de comunhão íntima provocado pela leitura. Ele é forçado a reconhece a materialidade do mundo na sucessão interminável das lombadas, no som das páginas virando sobre as mesas, no atrito das capas que se espremem nas prateleiras, e nesse cheiro rançoso que impregna qualquer ambiente em que há livros em grande número.” (pág. 10).

“Mas a biblioteca – especialmente uma tão vasta – não é um mero repositório de curiosidades. É um mundo a um só tempo completo e incompletável, cheio de segredos. Ela está submetida a um regime de mudanças e ciclos que contrastam com a permanência insinuada por suas longas fileiras ordenadas de livros. Arrastados pelo desejo dos leitores, os livros vão entrando e saindo das bibliotecas, num movimento semelhante aos das marés. [...] A biblioteca é como um corpo , e as páginas dos livros são os órgãos espremidos uns contra os outros” (pág. 11-12).

“A Biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges imagina o universo como se ele fosse uma biblioteca, ou ainda, imagina uma biblioteca que fosse todo o universo. Trata-se, no entanto, de uma biblioteca curiosamente uniforme, um ideal platônico, composta, segundo o narrador, de um número indefinido e talvez infinito de galerias hexagonais. Quatro paredes contêm estantes – cinco em cada uma delas. As outras duas abrem-se para cômodos adjacentes exatamente idênticos. A passagem de uma galeria a outra é atravessada por umas escadarias em espiral que mergulha num abismo sem fim e se eleva a distâncias remotas. Nas paredes, há espelhos que, segundo o narrador, anunciam e representam a extensão infinita da biblioteca. (pág. 24).”

Internet – a busca é tão casual, associativa e cheia de surpresas como sempre foi. (pág. 27)

Temple
“Como uma seta que aponta uma direção com uma inscrição, o livro pode apenas indicar o caminho, mas não pode dizer quais são as próximas curvas, resolver dúvidas nem responder a questões.” (pág. 93).



BATTLES, Mateus. A Conturbada História das Bibliotecas. São Paulo: Ed. Planeta, 2003.

Leitura que a Vivian Albani me passou...

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cena do Clube da Luta

TYLER

(...). Understood? The people you're after are everyone you depend on.
We do your laundry, cook your food and serve you dinner. We guard you while you sleep. We drive your ambulances. Do not fuck with us.


FIGHT CLUB by Jim Uhls based on a novel by Chuck Palahnuik
In: http://www.hundland.com/scripts/Fight-Club_third.htm

PROCURA-SE PARCEIRO DE FRESCOBOL

"(...) no squash a intenção é matar o ponto derrotando o adversário, onde até um olho vazado faz parte, no frescobol a intenção é fazer a bola permanecer voando – nenhum dos jogadores quer a vitória sobre o outro – a dupla quer o prazer de continuar o agradável jogo. É disso que precisamos: mais jogadores de frescobol e menos jogadores de squash (...)."

Por Roberto V. Janczura em 7/8/2007 In http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=445JDB008

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Alberto Giacometti


Imagens do livro de Ernst Scheidegger "Huellas de una amistad Alberto Giacometti"
Editorial Maehght París-Barcelona

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Miguelin de Guimarães Rosa

Miguelin era um menininho muito sensível, que morava num lugar nos confins de Minas na região das Matas Gerais, cuja família vivia uma vida dura na roça e cuidando do gado. Era um lugar de mata fechada. Lá onde moravam, ninguém compreendia muito bem o que se passava no mundo, não sabiam explicar muito bem nem as evidências nem os mistérios.
Miguelin entendia menos das coisas que todos os outros. Seu irmão Dito, mais esperto que ele, o protegia de quem lhe fazia mal, do rancor do pai, do mutismo e inconformismo da mãe que não gostava daquele fim de mundo e talvez, nem do marido.
Dito era o ídolo de Miguelin, traduzia pra ele os fatos, dava-lhe lições sobre o bem e como sobreviver sem compreender. Mas um dia Dito morre, assim como o pai de Miguelin assassinado pelo próprio irmão, amante da mãe de Miguelin.
Miguelin cai doente, desorientado e desgostoso com o seu destino. Depois disso, por viver meio tonto pelos lugares, colocaram o Miguelin pra trabalhar. Porém ele não rendia nada, não fazia nada direito, vivia tropeçando nas coisas e se machucando. Se confirmava a hipótese que ele era meio lerdo da cabeça...
Um dia, ele estava no portão da fazenda e viu longe o vulto de dois homens se aproximando. Quando se chegaram perto, Miguelin notou que eram de fora, bem vestidos de terno branco. O homem perguntou-lhe o nome e ele respondeu, sou Miguelin irmão do Dito. O homem e tornou a perguntar – “esta fazenda é do Dito? ‑ Miguelin respondeu que Dito estava no céu e que a fazenda era do seu pai, que também havia morrido. O homem apeou e notou que o menino forçava a vista para encará-lo, tirou os óculos e colocou em Miguelin...
E Miguelin primeiro viu cada grãozinho de areia, as formigas, levantou a vista viu as folhas, as flores, os galhos, o céu e que o homem não era dois, mas um só. Mais longe viu a casa, chegou perto da mãe e viu o quanto ela era bonita....
Miguelin não era lerdo da cabeça, apenas não enxergava muito bem...Era na verdade um menino que compreendia com coração e o narrador da história.
O homem resolve levá-lo para a cidade a fim de lhe fazer os óculos e ver o mar. Antes de ir, Miguelin pergunta para mãe, uma pergunta fundamental da vida:
“Mãe, por que tudo acontece?”

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Disposição propriamente dita...



De novo Manuel Gausa diz que entende disposições como dinâmicas de distribuição e ou de ocupação que, apesar da aparente impressão de desordem ou arbitrariedade que transmitem, possuem, como outras formas auto geradas existentes na natureza, lógicas próprias (não pré determinadas) ajustadas a regras de formação e "concertação" elementares.

Estas configurações retemetem a processos que manifestam uma "natureza" dispersa e flutuante, mediante concentrações pontuais e dilatações... Podem ser processos ou movimentos de ocupação, apropriação, agrupamento, espaçamento, expressam dinâmicas de oportunidade táticas, variáveis, flutuantes...


Manuel Gausa em Enredados. Revista Fisura. Madrid. setembro de 2001

terça-feira, 22 de maio de 2007

A superação da idéia de ordem e de composição

A idéia tradicional de ordem que havia marcado a interpretação clássica de espaço era baseada na idéia de composição como relação hierárquica, mas também como figuração coesa, fechada, predeterminada entre as partes. O ideário moderno postulou uma nova ordem alternativa associada a uma interpretação relativista do espaço e do tempo. Esta baseada na posição espacial como vinculação livre, mas não por isso menos estrita nem menos mensurável entre objetos. Posição como organização, todavia também como princípio inalterável, afiliador, em sintonia como o próprio momento ideológico, dogmático de espaço-tempo. Manuel Gausa autor deste texto traduzido escolhe como exemplo da noção de posição o filme "O ano passado em Marienbad" de Alain Resnais. Esta imagem em que as posições aparecem relativamente marcadas expressa uma ordem organizacional que é ideológica. Reflete a época em que o filme foi produzido, no pós-guerra.
Com a escala da recém vivenciada violência e barbárie da guerra não seria qualquer ficção que se pretendesse verossímel que poderia alcançar este objetivo. "Na verdade, este filme de Resnais se posiciona dentro do cinema moderno e algumas de suas características surgem com bastante vitalidade, principalmente o modo não linear de compor a narrativa abrindo para outros fluxos temporais, chamando a atenção para um uso do tempo como matéria-prima do cinema."(In Grupo Poéticas Audiovisuais da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, coord. Julio Pinto). Pois no filme, a "imagem não é mais metáfora ou tradução do tempo, mas o tempo mesmo, se desdobrando em sua multiplicidade".
Este filme então pode ser referido ao termo posição no seu sentido relativo, referencial. A etimologia do termo posição como situação espacial de um corpo, definida em relação a um ou vários pontos de referência fora dele, as palavras posição e situação são relacionadas ao termo conjuntura, que é concorrência de acontecimentos para um mesmo ponto ou situação. "Certamente, existe neste filme uma possibilidade de pensar tempo e memória vinculando-os a idéia de “acontecimento” - “no acontecimento coexistem as pontas de presente desatualizadas”)-"In Grupo Poéticas Audiovisuais da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, coord. Julio Pinto). Observando bem esta análise do Grupo da PUC Minas, na verdade não é fácil situar em termos de ordem este filme, mas segundo Gausa é assim.




A mudança do paradigma contemporâneo, e a nova idéia de tempo propiciam uma nova ordem informal, mais elástica, baseada não mais em composições nem em posições, mas em disposições, abertas com variações individuais e, portanto na diversidade. Em direção a uma articulação dinâmica e plural da informação.(...). Um exemplo da transição da noção de posição para de disposição. O filme Good Bye Lenin, diretor: Wolfgang Becker, o desmoronamento deum mundo e suas ideologias... O outro exemplo, as nuvens o modo não determinável como fazem suas formações remete à noção de disposição. A cena abaixo é do filme Beleza Americana de Sam Mendes, se bem que seria mais desejável ainda a cena do saco plástico voando ao sabor do vento, que corresponde radicalmente à noção de disposição.



Se o espaço moderno significou no seu tempo, a superação da idéia de composição como regulação em direção à posição como correlação, o espaço contemporâneo significa, agora a superação da idéia de posição em direção a idéia de disposição, como decisão operativa, mas também, como possível combinação ou distribuição indeterminada de posições e ou camadas de informação. De uma visão predeterminada do universo temos passado para uma mensurável e agora, diferencial (não universal).

Tradução livre de texto de Manuel Gausa In. GAUSA, Manuel, GUALLART, Vicente & MÜLLER, Willy et al. (orgs.). Diccionario Metápolis de arquitectura avanzada. Ciudad y tecnologia en la sociedad de la información. Barcelona: Actar, 2000.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

O Guardião dos Livros



















O Guardião dos Livros
"(...) Por que enganar-me?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas me consolo pensando
Que o imaginado e o passado já são o mesmo
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
E agora volta a ser o deserto.
Que me impede sonhar que alguma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com aplicada mão os símbolos?
Meu nome é Hsiang. Sou o que custodia os livros,
Que talvez sejam os últimos,
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Aí estão nas altas estantes,
A um tempo próximos e distantes;
Secretos e visíveis como os astros.
Aí estão os jardins, os templos."

Jorge Luís Borges in Elogio da Sombra
Tradução Carlos Nejar e Alfredo Jacques

terça-feira, 7 de novembro de 2006

CORPUS


A palavra latina corpus que significa conjunto, corpo; é utilizada no meio acadêmico compreendida como um conjunto temático de dados, informações textuais e documentos sobre um assunto ou autor. “Para Roland Barthes, um corpus é uma coleção finita de diversos materiais (sons, imagens, escritos, entre outros) reunidos arbitrariamente por um pesquisador. Seguindo por esse caminho, extrapola-se o significado convencionalmente aceito e abre-se espaço para que ele seja constituído por múltiplos "materiais de linguagem" dos mais diversos, independentemente da forma que se apresentam.” (In. Sérgio Carvalho Benício de Mello & Marcio Gomes de Sá).

http://www.whitecube.com/exhibitions/chlebnikov/

Anselm Kiefer artista alemão faz nesse trabalho uma espécie de coleção de ondas, paisagens aquáticas e marinhas, barcos,,, citando William Turner, Coubert, Caspar Friedrich David. Chama atenção o título de uma matéria sobre este trabalho: "making waves".
Neste trabalho Kiefer emprega uma variedade "quase desconcertante" de materiais desde a pintura de óleo grossa, base de todos seus trabalhos, restos, modelos, fotografias, xilogravuras, areia, palha e toda o tipo de material orgânico. Somando materiais 'reais' na enorme superfície pintada ilusionística. Alguns críticos dizem que ele "inventou um espaço entre a pintura e a escultura". Eles também dizem, e é fato, que poucos artistas contemporâneos possuem o alcance épico de Kiefer; a natureza provocante e paradoxal do seu trabalho sugere que ele aderiu à noção do artista moderno que se coloca resolutamente fora da sociedade - um outsider, "ostentando suas histórias, seus tabus e seus mitos". Assimilando e utilizando as convenções e tradições da história da pintura, ele vai além deles, ou entrosando pontos de vista e apresentando interpretações contraditórias ou mesmo emulando-as... Kiefer já trabalhou com materiais empilhados randomicamente, bibliotecas ou arquivos estranhos, e outros temas e questões do momento em que vive...

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Matéria se desinformando da parede



Nas artes experimentais contemporâneas
“Forjar e modelar pressupõe, como vimos, um material a ser moldado. O que a arte experimental moderna e pós-moderna, entretanto, fazem em grande parte não é tanto moldar a matéria, mas exibi-la. A tinta, o timbre, a tonalidade estão livres da subserviência de retratar algo, de serem constituintes do compasso, do ritmo, da melodia, em vez disso, tornam-se o próprio processo de apresentação. A matéria não é forjada, mas apresentada por aquilo que ela é. Ainda assim, tal apresentação requer alguma sutentação, cujas formas aparecem num estado neutralizado. A ‘matéria’, escreve Lyotard, ‘é precisamente considerada como algo que não está finalizado, que não é proponente de algo ou designado para algo. Não é mais tomada como um material cuja função seria preencher uma forma ou permitir-lhe realizar. A matéria nesse contexto seria essencialmente o que não está endereçado, o que não se endereça à mente (aquilo que de modo algum participa numa pragmática da destinação comunicacional e teleológica)’. A matéria como sujet é tornada tangível até o grau no qual a forma de sua apresentação cancela a si mesma. Essa reversão tem duas implicações importantes. O que era antes estrutura tradicional da obra de arte, a saber, dar forma à matéria foi herdado pela estética tal como funciona no mundo contemporâneo. A proeminência dada à matéria na arte moderna atesta o relacionamento dos dois componentes do estético, que molda e exibe a matéria através do cancelamento da forma. (...) Embora as artes experimentais tenham se tornado marginais, o estético faz um retorno triunfante porque, num mundo cada vez mais desorientado, somente ele pode comunicar ou enfrentar uma realidade de finalidade aberta”.
Fragmento de texto de WOLFGANG Iser. O ressurgimento da estética In ROSENFIELD, Denis L. Ética e Estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 48.

sábado, 15 de julho de 2006

Há locais de memória porque não há mais meios de memória





“A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória.

Pensemos nessa mutilação sem retorno que representou o fim dos camponeses, esta coletividade-memória por excelência cuja voga como objeto da história coincidiu com o apogeu do crescimento industrial. Esse desmoronamento central de nossa memória só é, no entanto, um exemplo. É o mundo inteiro que entrou na dança pelo fenômeno bem conhecido da mundialização, da democratização, da massificação, da mediatização." Pierre Nora In. http://www.dochis.arq.br/htm/numero/num12b.html

segunda-feira, 19 de junho de 2006

"Como fica a idéia do autor quando as obras de arte passam a ser coletivas?"

"Se pegarmos, por exemplo o caso da música. Tem um sistema de notas em sistema sonoro podemos dizer que este sistema é um tipo de instrumento conceitual para a música. Você. tem um violino ou um piano. Eles são feitos por artistas: as pessoas que fabricam o piano, que fabricam o violino, esses instrumentos podem ser considerados obras de arte. Um Stradivarius é uma obra de arte. Alguém que utiliza um Stradivarius não diminui sua criatividade. Quem se inscreve no sistema da tonalidade clássica ocidental não tem sua criatividade diminuída. Ele a utiliza como instrumento como uma regra de jogo. Ora, o que estamos experimentando atualmente é uma situação na qual cada pessoa que compõe um trecho de música fabrica não somente uma mensagem, uma obra de arte mas, ao mesmo tempo um instrumento que os outros poderão utilizar. È como se disséssemos: cada pintor faz um quadro ou vários quadros mas esses quadros são também, pigmentos que os outros pintores vão poder empregar para pintar seus quadros. Portanto, hoje em dia, cada obra tem, de certo modo um duplo papel: um papel de mensagem ou de obra e um papel de instrumento. Podemos dizer que há uma hierarquia da complexidade. Você fabrica um computador. Ele é um tipo de instrumento universal. É preciso criatividade para se construir um computador. Você fabrica um programa de criação musical. E isto já está em um grau mais elevado. Um programa de computador é uma obra mas também um instrumento para se construir outras. Você fabrica um banco de efeitos sonoros: ele é uma obra, mas também um instrumento para que outros possam criar música. Você cria um trecho de música, isso já é uma obra. Mas é também matéria prima que outros poderão utilizar. Perceba que existe, o tempo todo, esse papel duplo. È um fenômeno presente em toda a cibercultura. Essa noção de dupla face. Por exemplo, você. cria um site web. Um site web é um conjunto de informações. Ao cria-lo, você. acrescenta informações ao estoque de informações já disponíveis. Mas, ao mesmo tempo um site oferece certo número de links com outros sites web.Trata-se de um instrumento para navegar na informação, e não apenas de um instrumento de informação. Acho que a dissolução da separação entre o instrumento de produção e a obra é algo própria à cibercultura. Todas as obras podem se transformar em instrumentos de produção, podem ser considerados como obras, pois eles moldam a sensibilidade ou a capacidade de produzir mensagens . portanto, há uma espécie de difusão da criatividade e, finalmente, é por isso que a noção de autor ou artista não digamos que desapareça mas começa a ser questionada e passa um pouco para o segundo plano uma vez que a produtividade e a criatividade estão no processo coletivo. Isto não quer dizer que talento, originalidade e inspiração não são necessários. Provavelmente sempre precisaremos disso. Mas há um deslocamento dessa noção de criatividade em direção aos processos coletivos e podemos perceber nisso muito bem na música tecno.

Quando se fala da música tecno, não devemos acreditar que este seja um gênero particular e bem definido. É certo que a música tecno é a música que toca nas raves tomamos ecxtasy e vamos dançar ritmos extremamente mecânicos, até mesmo industriais. Isso é somente uma das dimensões do fenômeno. Na verdade, podemos dizer que toda a música contemporânea está se tornando música tecno e que entre os diferentes gêneros por exemplo acid-jazz, tecno, hip-hop, new age, etc. Existem cada vez menos fronteiras entre todos estes gêneros e vivemos um processo de expansão da consciência musical, em que as distinções entre os gêneros têm cada vez menos importância ."

Recorte de uma entrevista com o filósofo francês Pierre Levy ao jornalista Florestan Fernandes Jr. para a série “As Formas do Saber” In:
http://www.saplei.eesc.usp.br/sap5865/leitura_semanal/PIERRE%20LEVY_arte%20e%20pensamento.htm

terça-feira, 6 de junho de 2006

Território vivido

“Os territórios estariam ligados a uma ordem de subjetivação individual e coletiva e o espaço está ligado mais às relações funcionais de toda espécie. O espaço funciona como uma referência extrínseca em relação aos objetos que ele contém. Ao passo que o território funciona em uma relação intrínseca com a
subjetividade que o delimita” Felix Guattari
O território pode ser relativo tanto ao espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual o sujeito se sente ‘em casa’. O território é sinônimo de apropriação , de subjetivação fechada sobre si mesma . Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos...

foto da Susane Moulié

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Xamã de muitas vidas


Edwin Torres poeta da "spoken word" diz: "o xamã tem muitas vidas hoje, através da internet, através da midia, como seres humanos tão ritualísticos, como animais são seres"(...) "A rua é uma universidade tão vital quanto a academia".
Adre Breton dizia: "A rua é o melhor lugar para experiência".

terça-feira, 23 de maio de 2006

Linhas, dobras, labirintos


Deleuze e as linhas e as dobras
Repare no mundo das linhas que se cruzam e se tecem. Nós pensamos que as linhas são os componentes básicos das coisas e dos eventos. Assim tudo tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama diz Gilles Deleuze. Interessa as linhas que constituem os fluxos da globalização e da cidade. Eu tendo a pensar das coisas como jogos de linhas a serem desemaranhadas, mas a ser feitas também para cruzar-se. Eu não gosto de pontos. As linhas não são coisas que funcionam entre dois pontos; os pontos estão onde diversas linhas se cruzam. As linhas nunca funcionam uniformemente, e os pontos não são nada, mas inflexão das linhas. Mas geralmente, não são os inícios e as extremidades que contam, mas os intermédios.
Deleuze tem interesse no desdobramento, na abertura, no desvelamento, no labirinto infinito da dobra para dobrar, que produz a topologia do mundo como um do processo que rejeita a ficção dos limites, da fixidez, a permanência, o encaixe, o enclave, o encravamento.
O que é importante é que todas as dobras são igualmente importantes, não há nenhuma hierarquia entre as dobras. Elas não podem ser definidas pelos termos do essencial e o inessential, o necessário e o contingente, ou o estrutural e o ornamental. Cada dobra faz sua parte: cada dobra alarga ' a ' distante. O evento do origami está no desdobrar, apenas como o presente está em envolver: não como o índice, mas como o processo. Bruno Latour, e Michel Serres observam que as dobras ou /o próximo tornado distante/ não formam uma teoria métrica do espaço (e do tempo), que foi rejeitada a favor de uma teoria topológica em que o espaço-tempo é visto dobrado, enrugado e de modo multi-dimensional.

Tradução do texto de C. Blake. Apparatus of Capture: The Use of Deleuzian Thought and Actor Network Theory to Conceptualise Urban Power Relations. In site do GaWC: Globalization and World Cities Study Group and Network. Documento 111

A dobra é o acontecimento
A dobra é o acontecimento, a bifurcação que faz ser. Cada dobra, ação-dobra ou paixão-dobra, é o surgimento de uma singularidade, o começo de um mundo. A proliferação ontológica é irredutível a uma ou outra camada particular dos estratos; igualmente irredutível a qualquer dobra-mestra como aquela do ser e dos entes, da infraestrutura e da superestrutura, do determinante x e do determinado y. O mundo total e intotalizável, o trans-mundo cosmopolita, diferenciado, diferenciante e múltiplo é, ao contrário, infinitamente redobrado, ele fervilha de singularidades nas singularidades, de dobras nas dobras. As oposições binárias maciças ou molares como a alma e o corpo, o sujeito e o objeto, o indivíduo e a sociedade, a natureza e a cultura, o homem e a técnica, o inerte e o vivo, o sagrado e o profano, e até a oposição de que partimos entre transcendental e empírico, todas essas divisões são maneiras de dobrar, resultam de dobras-acontecimentos singulares do mesmo “plano de consistência” (Deleuze e Guattari, Mil Platôs n. 4/5). “Isso” poderia ter se dobrado de outra maneira. E como a dobra emerge num infinitamente diversificado, mas único, sempre se pode remontar ao acontecimento da dobra, seguir seu movimento e sua curvatura, desenhar seu drapê, passar continuamente de um lado para o outro.
Texto de Pierre Levy. Plissê fractal ou como as máquinas de Guattari podem nos ajudar a pensar o transcendental hoje.

A dobra e o labirinto de Leibniz
Deleuze serviu-se da metáfora do labirinto para explicar o conceito de espaço em Leibniz, em seu livro A Dobra. Diz Deleuze, “Leibniz explica em um texto extraordinário: um corpo flexível ou elástico ainda tem partes coerentes que formam uma dobra, de modo que não se separam em partes de partes, mas sim se dividem até o infinito em dobras cada vez menores, que conservam sempre uma coesão. Assim, o labirinto do contínuo não é uma linha que dissociaria em pontos independentes, como a areia fluida em grãos, mas sim é como um tecido ou uma folha de papel que se divide em dobras até o infinito ou se decompõe em movimentos curvos, cada um dos quais está determinado pelo entorno consistente ou conspirante. Sempre existe uma dobra na dobra, como também uma caverna na caverna. A unidade da matéria, o menor elemento do labirinto é a dobra, não o ponto, que nunca é uma parte, e sim uma simples extremidade da linha”. O espaço leibniziano é constituído como um labirinto com um número infinito de dobras, algo similar à cidade composta de quadras, casas, quartos, móveis, dobras dentro de dobras, dobras que conformam espaços, como um origami, a arte da dobradura do papel.
Texto de Fernando Fuão. O sentido do espaço. Em que sentido, em que sentido? – arquitexto 50 in site do Vitruvius

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Segundo Antonio Negri


A miltância hoje não é distribuir panfleto, colar cartaz, dizer palavras de ordem. Militar é investigar. Fazer pesquisa para entender esses desdobramentos do trabalho. Identificar a capacidade produtiva do trabalho para fazer militância. É um trabalho cultural. (...)
A globalização não tirou a possibilidade de transformar o mundo, mas diluiu sobre toda a face da terra essa possibilidade. Há várias cargas políticas hoje no mundo prontas para explodirem. Temos de reconhecê-las para guiá-las. Hoje, portanto, o grande problema é se inserir no mercado mundial buscando localizar essas questões. Não se trata de auto-flagelamento, mas estar sempre pronto para uma tentativa de renovação. Antonio Negri

Ver texto na íntegra no post "Uma mensagem para militância" Inhttp://jornalismodigitalufes.blogspot.com/2005_10_23_jornalismodigitalufes_archive.html

domingo, 7 de maio de 2006

Segundo John Cage


Onde não parece haver nenhum espaço, saiba que não sabemos mais o que é espaço. Tenha fé, o espaço está lá, dando as pessoas a chance de renovar sua maneira de reconhecê-lo, não importa por que meios, psiquicos, somáticos ou meios que envolvam extensões de ambos. As pessoas ainda pedem definições, mas agora é tranquilo que nada pode ser definido. Muito menos a arte, seus propósitos, etc. Não estamos certos nem sobre as cenouras (se elas são o que pensamos que são, quão venenosas elas são, quem as desenvolveu e em que circunstâncias). John Cage, 1966

Já não se trata de as pessoas serem conduzidas por alguém que assume a responsabilidade. É como Mcluhan diz: uma situação tribal. Precisamos de ajuda mútua para fazer (colheita, arte) o que tem que ser feito. John Cage

sábado, 6 de maio de 2006

Pergunta!!


« De que recursos dispõe uma pessoa ou um coletivo para afirmar um modo próprio de ocupar o espaço doméstico, de cadenciar o tempo comunitário, de mobilizar a memória coletiva, de produzir bens e conhecimento e fazê-los circular, de transitar por esferas consideradas invisíveis, de reinventar a corporeidade, de gerir a vizinhança e a solidariedade, de cuidar da infância ou da velhice, de lidar com o prazer ou a dor?. »
« Mais radicalmente, impõe-se a pergunta: que possibilidades restam de criar laço, de tecer um território existencial e subjetivo na contramão da serialização e das reterritorializações propostas a cada minuto pela economia material e imaterial atual? In Peter Pal Pelbart »

quarta-feira, 3 de maio de 2006

I fall in love too easily



•Corpo sem órgãos
•Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Ao Corpo sem Órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite. Diz-se: que é isto - 0 CsO - mas já se está sobre ele - arrastando-se como um verme, tateando como um cego ou correndo como um louco, viajante e nômade da estepe. É sobre ele que dormimos, velamos, que lutamos, lutamos e somos vencidos, que procuramos nosso lugar, que descobrimos nossas felicidades inauditas e nossas quedas fabulosas... Deleuze ...